Saúde “ENVENENAR” ARROZ
ESTUDO ALERTA: MUDANÇAS CLIMÁTICAS AUMENTARÃO NÍVEIS DE ARSÊNIO NO ARROZ ATÉ 2050
POR QUE AQUECIMENTO GLOBAL PODE ENVENENAR ARROZ EM PARTES DO MUNDO
29/04/2025 22h21
Por: Redação Fonte: Jose Carlos

Por que aquecimento global pode 'envenenar' arroz em partes do mundo

O arroz é um alimento básico para bilhões de pessoas ao redor do mundo, mas um novo estudo sugere que as mudanças climáticas podem aumentar os níveis de arsênio contidos no grão

O arroz é um alimento básico para bilhões de pessoas ao redor do mundo, mas um novo estudo sugere que as mudanças climáticas podem aumentar os níveis de arsênio contidos no grão — Foto: INTERNET

O arroz é um alimento básico para mais da metade da população mundial. É consumido diariamente por mais pessoas do que o trigo ou o milho.

Portanto, é com certa preocupação que os cientistas revelaram uma descoberta recente: à medida que as emissões de carbono aumentam, e a Terra continua a esquentar, o mesmo acontece com os níveis de arsênio no arroz.

A presença de arsênio no arroz é conhecida há muito tempo como um problema.

Quase todo arroz contém arsênio. Esta substância química nociva, de ocorrência natural, pode se acumular no solo dos arrozais, contaminando os grãos de arroz cultivados. Mas as quantidades encontradas nos grãos de arroz podem variar consideravelmente, desde valores bem abaixo dos limites recomendados pelos órgãos reguladores até valores muito superiores.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) explica que, como o arsênio é encontrado na crosta terrestre, pode estar presente na água e em alimentos. Por isso, há limite máximo tolerado estabelecido, que é a concentração máxima do contaminante legalmente aceita no alimento.

A concentração de arsênio permitida no Brasil é de 0,20 mg/kg para arroz branco e 0,35 para arroz integral.

Um dos primeiros a pesquisar o arsênio em alimentos no Brasil, Bruno Lemos Batista, professor de química na Universidade Federal do ABC (UFABC), explica que as últimas pesquisa que fez mostraram que os valores estavam dentro das recomendações mundiais e dos limites da legislação brasileira. A Anvisa fez a última avaliação em 2023, quando também identificou normalidade.

No entanto, consumir até mesmo pequenas quantidades de arsênio inorgânico por meio de alimentos ou água potável pode levar a uma série de problemas de saúde, como câncer, doenças cardiovasculares e diabetes.

Lemos explica, porém, que "se colocássemos limite zero de arsênio nos alimentos, poderíamos não ter alimentos para consumir".

No momento, os limites que temos para o arroz apontam a uma pouca incidência de doenças causadas pelo arsênio.

"Isso minimiza os riscos e permite o consumo, mas o risco ainda existe", avalia Lemos.

Pesquisadores ao redor do mundo têm estudado maneiras de reduzir os níveis de arsênio no arroz — e, enquanto isso, há maneiras de cozinhá-lo que podem extrair parte deste elemento nocivo dos grãos.

Mas um novo estudo sobre o acúmulo de arsênio inorgânico mostrou que ele pode se tornar um problema maior devido às mudanças climáticas. Os pesquisadores cultivaram 28 variedades diferentes de arroz em quatro locais diferentes na China em condições experimentais durante um período de 10 anos.

Eles descobriram que os níveis de arsênio no arroz aumentavam à medida que os níveis de dióxido de carbono (CO₂) na atmosfera e as temperaturas subiam.

ENTENDA:

Nova pesquisa indica que o aquecimento global intensificará a contaminação do  arroz por arsênio, afetando milhões de pessoas na Ásia e no mundo

O arroz, alimento básico para mais da metade da população global, pode se tornar um veículo ainda mais tóxico para o consumo humano até 2050, segundo um estudo publicado na revista The Lancet Planetary Health. A pesquisa revela que as mudanças climáticas devem elevar significativamente os níveis de arsênio inorgânico (iAs) nos grãos, aumentando os riscos à saúde pública em escala global.

Realizado por cientistas da Universidade de Columbia (EUA), em parceria com a Academia Chinesa de Ciências e a Universidade Johns Hopkins, o estudo é o primeiro a examinar com profundidade os efeitos combinados do aumento da temperatura global e das emissões de CO₂ sobre o acúmulo de arsênio no arroz.

“Com o avanço do aquecimento global, a contaminação do arroz por arsênio poderá aumentar drasticamente, elevando os riscos de câncer, doenças cardíacas, diabetes e outros problemas graves de saúde, alerta Lewis Ziska, principal autor do estudo e pesquisador da Escola de Saúde Pública Mailman da Universidade de Columbia.

 

Arsênio no arroz: um problema crescente com raízes no solo

O arsênio é um metal tóxico naturalmente presente em solos e águas subterrâneas, mas sua absorção pelo arroz tende a se intensificar sob certas condições ambientais — entre elas, temperaturas elevadas e altos níveis de dióxido de carbono na atmosfera.

A equipe analisou 28 variedades de arroz em campo, ao longo de uma década, utilizando a técnica FACE (Enriquecimento de CO₂ em Ar Livre), além de modelos de projeção para sete países asiáticos: China, Índia, Bangladesh, Indonésia, Filipinas, Mianmar e Vietnã.

 

As simulações indicaram que, até 2050:

  • A absorção de arsênio pelos grãos aumentará com a elevação de 2 °C na temperatura
  • A exposição alimentar ao arsênio se tornará mais frequente e intensa
  • A incidência de câncer de pulmão e bexiga poderá crescer significativamente
  • Somente na China, 13,4 milhões de pessoas podem desenvolver cânceres relacionados ao consumo de arroz contaminado

 

Impactos preocupantes à saúde pública

Além dos tipos de câncer já reconhecidos, o estudo aponta que a exposição crônica ao arsênio está associada a:

  • Doenças cardiovasculares
  • Diabetes tipo 2
  • Problemas neurológicos e no desenvolvimento infantil
  • Efeitos sobre o sistema imunológico
  • Complicações durante a gravidez

“Esses resultados revelam um impacto direto das mudanças climáticas sobre a qualidade nutricional e segurança alimentar de um dos alimentos mais consumidos no mundo”, reforça Ziska.

O que pode ser feito?

Para mitigar os impactos previstos, os pesquisadores defendem uma abordagem integrada que envolva:

  • Melhoramento genético de cultivares menos propensas à absorção de arsênio
  • Gestão adequada dos solos e práticas de irrigação mais seguras
  • Boas práticas no processamento do  arroz, desde o descascamento até o cozimento
  • Monitoramento constante de níveis de contaminação nos países mais vulneráveis
  • Educação do consumidor e ações de saúde pública voltadas à segurança alimentar

 

Um alerta global para políticas alimentares e climáticas

O estudo traz um importante recado: as mudanças climáticas impactam não apenas a produção de alimentos, mas também sua qualidade e segurança. Isso reforça a necessidade urgente de políticas públicas que integrem agricultura, saúde e meio ambiente, sobretudo em regiões onde o  arroz é a base alimentar.

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“Além da água potável, o arroz já é a maior fonte de arsênio inorgânico na dieta de milhões de pessoas. Com o aquecimento global, isso tende a piorar”, concluem os autores.

FONTE: ROTA VERDE