Se todas as pessoas no mundo tivessem uma pegada de carbono como a dos 50% mais pobres da população global, o mundo teria visto um aquecimento adicional mínimo desde 1990. Por outro lado, se o padrão mundial fosse como o dos 10%, 1% ou 0,1% mais ricos, o aumento da temperatura no planeta teria sido de 2,9°C, 6,7°C ou “completamente insuportáveis” ​​12,2°C, afirma o pesquisador Carl-Friedrich Schleussner, coautor de um estudo publicado nesta quarta-feira (7) no periódico científico Nature Climate Change.
O estudo é inovador em quantificar a responsabilidade dos mais ricos no mundo (não necessariamente super-ricos) sobre os efeitos do aquecimento global, que vem tornando mais frequentes eventos extremos como inundações e ondas de calor, observa reportagem do jornal The Guardian.
A conclusão do grupo de pesquisadores é de que os 10% mais ricos do mundo são responsáveis ​​por dois terços (66%) do aquecimento global desde 1990, causando consequências severas no clima das partes mais pobres do mundo.
Neste grupo dos 10% estão pessoas que ganham mais de R$ 280 mil por ano em qualquer parte do globo. No Reino Unido, é um salário anual considerado mediano, observa o Guardian, com ganho de R$ 23,3 mil ou mais por mês.
Para entrar no clube do 1% mais rico, é necessária uma renda anual de ao menos R$ 959 mil, e no seleto grupo dos 0,1% mais ricos, cerca de 800 mil pessoas no mundo, esses ganhos pulam para um piso de R$ 3,5 milhões por ano.
Para produzir a análise, os pesquisadores inseriram em programas de modelagem climática dados sobre a desigualdade nas emissões de gases de efeito estufa baseadas no grau de riqueza. Isso permitiu atribuir sistematicamente as mudanças nas temperaturas globais e a frequência de eventos climáticos extremos que ocorreram entre 1990 e 2019.
Ao subtrair as emissões dos 10%, 1% e 0,1% mais ricos, o grupo modelou as mudanças no clima e a frequência de eventos climáticos extremos que teriam ocorrido sem os impactos de consumo e locomoção gerados pelos mais ricos do mundo. Ao comparar este cenário fictício com a realidade atual, os cientistas afirmam ter calculado a responsabilidade deste grupo de cidadãos pela crise em que o mundo se encontra hoje.
“Em 2020, a temperatura média global foi 0,61°C superior à de 1990. Os investigadores descobriram que cerca de 65% desse aumento poderia ser atribuído às emissões dos 10% mais ricos do mundo”, destaca a reportagem.
Os pesquisadores esperam que a análise dê base a políticas políticas que reconheçam as contribuições desiguais dos mais ricos do mundo para a crise climática, permitindo responsabilização e eventuais cobranças.
A pesquisa surge em meio à intensa resistência de países como os Estados Unidos, mas também com eco pela Europa, a estabelecer financiamento para que países mais pobres se adaptem ao colapso climático e mitiguem seus piores efeitos.
"Esta não é uma discussão acadêmica – trata-se dos impactos reais da crise climática hoje", acrescentou Schleussner. "A ação climática que não aborda as responsabilidades descomunais dos membros mais ricos da sociedade corre o risco de perder uma das alavancas mais poderosas que temos para reduzir danos futuros."