Sair de uma relação ruim raramente é uma escolha puramente racional. Por mais que a mente diga “isso não me faz bem”, existe algo mais profundo que nos mantém ali — uma força emocional e inconsciente que opera abaixo da superfície. E é por isso que muitas mulheres seguem presas a relações que machucam, mesmo sabendo que merecem mais.
O relatório “Visível e Invisível: a vitimização de mulheres no Brasil (2025)”, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mostra que 37,5% das mulheres permaneceram em relações prejudiciais por medo da solidão, por baixa autoestima ou por acreditarem que o outro poderia mudar. Esses dados não apenas ilustram uma realidade dolorosa — eles escancaram o quanto estamos lidando com mecanismos afetivos e psíquicos que vão além da razão.
A psicanálise nos ajuda a entender que há em nós a tendência inconsciente de repetir padrões, mesmo quando eles são destrutivos. É como se estivéssemos tentando, de forma disfarçada, resolver antigos vazios afetivos.
Uma das armadilhas mais comuns está na ideia de que ser amada é ser protegida — mesmo que essa “proteção” venha disfarçada de controle. Em relações abusivas, o outro muitas vezes se apresenta como quem “sabe o que é melhor”, limitando a liberdade da mulher sob o pretexto de cuidado.
Essa fantasia está profundamente ligada ao que a psicologia chama de complexo de Cinderela: a busca por alguém que nos salve, que nos retire da nossa própria vulnerabilidade. Na verdade, o desejo por segurança extrema, aqui, encobre um medo infantil do desamparo — e é isso que o agressor manipula. Promete proteção, mas entrega prisão.
O medo de ficar só é um dos afetos mais primitivos que carregamos. Ele nasce, muitas vezes, de experiências precoces de rejeição ou negligência emocional. Quando crescemos sem segurança afetiva, passamos a temer qualquer sinal de afastamento como uma ameaça à nossa própria existência emocional.
E aí surge a contradição: preferimos relações instáveis, imprevisíveis e dolorosas a encarar o vazio da ausência. A frase “antes mal acompanhada do que só” não é apenas uma crença cultural — é uma tentativa inconsciente de evitar o contato com o próprio desamparo.
Relacionamentos abusivos ocorrem quando uma ou as duas pessoas da relação têm comportamentos de abuso físico, emocional, sexual, patrimonial ou moral com o parceiro. Essas atitudes podem começar brandas, com pequenas mentiras, e chegar a extremos, como agressões.
No início, o relacionamento pode parecer saudável e feliz. Porém, ao longo do tempo, um dos parceiros pode adotar comportamentos controladores e prejudiciais, dificultando a percepção de quem está sendo vítima.
Por isso, o mais importante na hora de entender se você está em um relacionamento abusivo, é ficar atento aos sinais.
Muitas vezes, quem está em um relacionamento abusivo sequer sabe da sua situação. É muito comum que vítimas dessas relações acreditem que conviver sob constante desrespeito seja comum.
Porém, não é. Nenhuma relação é perfeita, é claro, mas nenhum relacionamento existe para machucar – seja física, verbal ou emocionalmente.
Existem diversos sinais para saber se você está em um relacionamento abusivo. E os abordaremos detalhadamente abaixo. Mas, em geral, de forma abrangente, todo relacionamento abusivo apresenta:
As vítimas são sempre confrontadas sobre onde estavam, com quem e por quê. O abusador desconfia de cada passo da vítima e, mesmo onde não há motivo, ele irá encontrar alguma coisa para sentir ciúmes.
Em relacionamentos abusivos, é normal que a vítima, por exemplo, não possa postar foto sozinha ou ainda ter uma foto de perfil só dela, que o parceiro não apareça. Não pode ter amigos do sexo pelo qual sente atração ou mesmo conviver com eles.
Nessas relações, o abusador sempre tem algum tipo de controle sobre a vítima – e sempre busca mais e mais controle.
Seja com um aplicativo de localização, onde ele verifica a cada minuto onde você está, ou pedindo provas que mostrem com quem você está, ou vendo a localização de suas fotos, ou com a senha de suas redes sociais… uma pessoa abusiva sempre vai controlar o que a vítima faz ou deixa de fazer.
Um dos sinais mais visíveis de um relacionamento abusivo são os abusos físicos. A violência. Na busca por controle, o abusador pode partir para a agressão física da vítima.
Muitas vezes, tomadas por uma ilusão e dependência emocional, algumas vítimas podem acreditar que esse tipo de abuso “aconteceu só uma vez”, “nunca mais irá se repetir”, “foi na hora da raiva”, “foi só um tapa”. Esses pensamentos são comuns porque, geralmente, as vítimas não identificam a violência e tendem a naturalizá-la.
Quem bate uma vez, pode bater duas, três… e mais do que repetir o crime, o abusador tende a aumentar a intensidade. Se um dia foi um tapa, pode ser que a agressão se torne ainda mais perigosa. E letal.
O abuso físico é um crime que deve ser denunciado. Se você foi vítima de violência doméstica, não exite em chamar a polícia. Ligue 180. Não coloque sua vida em risco.
O abuso psicológico, embora menos visível do que o físico, muitas vezes, pode doer tanto quanto. Relacionamentos abusivos costumam ser repletos de violência emocional.
O abusador humilha, xinga, desrespeita, desmerece, manipula emocionalmente, invalida sentimentos, impõe culpa, ignora suas necessidades, desvaloriza suas conquistas, minimiza seus esforços, usa sarcasmo para ferir, e cria um ambiente de constante tensão e insegurança.
Outro sinal claro de um relacionamento abusivo é a chantagem emocional. O abusador usa ameaças, sejam veladas ou explícitas, para controlar a vítima.
É comum ouvir coisas como: “Se você me deixar, eu faço algo que vai te machucar”, ou até ameaçar prejudicar a si mesmo caso a vítima dê indícios de querer largar o relacionamento.
O abusador manipula os sentimentos da pessoa, fazendo com que ela se sinta responsável por sua felicidade ou por possíveis consequências negativas. Esse tipo de comportamento visa gerar culpa na vítima, para que ela aceite o abuso para evitar o pior.
Na tentativa de manter o controle sobre a vítima, o abusador promoverá o isolamento da vítima.
O abusador frequentemente tenta afastar a vítima de amigos e familiares, dizendo que essas pessoas não têm boas intenções ou que estão tentando prejudicar o relacionamento.
Assim, cada vez mais, a vítima se vê presa à pessoa abusiva. Ela é induzida a não frequentar reuniões com a família, não se encontrar mais com amigos e não participar mais de atividades sociais.
Um dos principais traços de pessoas abusivas é que elas nunca vão se mostrar abusivas no início. Muito pelo contrário!
No começo da relação, abusadores são charmosos e frequentemente muito apaixonados. Por isso, o relacionamento abusivo começa de forma intensamente positiva e rápida.
Depois, quando surge a intimidade, abusadores passam a mostrar outras facetas de sua personalidade e se tornam mais:
No dia a dia, você pode reconhecer uma pessoa abusiva por atitudes, como:
Se essas atitudes são comuns e frequentes no seu relacionamento, saiba que ele não é saudável. Além disso, se se sentir ameaçada ou com medo de que alguma coisa violenta possa acontecer, não exite em buscar ajuda policial.
Conviver com uma pessoa abusiva nunca é fácil. Permanecer nesse relacionamento pode trazer prejuízos a curto e a longo prazo. Muito mais do que brigar a quatro paredes, os impactos do abuso são inúmeros:
Vítimas de um relacionamento abusivo, na maioria das vezes, se submetem a esse tipo de relação porque têm algum grau de dependência emocional.
Como explicamos na introdução, ninguém entra em um relacionamento abusivo porque quer. Simplesmente, uma relação que parece ter tudo para ser incrível, se torna tóxica aos poucos.
Junto com os abusos, surge a dependência emocional. A vítima mantém o vínculo, enganada pela alternância entre violência e gentileza. Os momentos de carinho, por mais breves que sejam, fazem nutrir a esperança de que o agressor irá mudar. Por estar isolada socialmente, a vítima sente que o parceiro abusivo é a única pessoa para se apoiar.
Você já ouviu falar na metáfora da teia em relacionamento abusivo? Saiba como ela acontece:
O abusador começa a limitar, controlar e vulnerabilizar de tal modo que a vítima se vê, algum dia, presa, como em uma teia.
A teia vai se construindo aos poucos, sendo praticamente invisível. Você precisa reparar bem nela para poder enxergá-la. Mas, quando percebe, ela está lá e a vítima está presa.
Com a dependência emocional, a pessoa abusada passa a aceitar as atitudes desrespeitosas do outro com medo de ficar ainda mais sozinha.
É difícil sair de um relacionamento abusivo porque o abusador nem sempre está vestido de abusador. Em meio às atitudes de violência, ele traz flores, elogia, dá carinho e trata bem. Entretanto, pode levar do céu ao inferno em instantes!
Justamente por isso, relacionamentos abusivos tendem a durar anos. A vítima se vê presa em um ciclo infinito:
É difícil sair de um relacionamento abusivo porque é extremamente confuso conseguir diferenciar a pessoa boa daquela que te faz tão mal. Afinal, como é possível alguém que diz amar ser capaz de cometer tantas atrocidades? O verdadeiro amor não causa sofrimento, portanto pode haver um erro de leitura em perceber amor em um relacionamento abusivo.
Nenhum relacionamento é perfeito, é claro. Mas relacionamentos saudáveis evoluem, crescem e se fortificam. Se ocorrem erros, eles são de natureza leve e o casal entende que é possível repará-los e não repeti-los mais. Com isso, o perdão acontece de forma natural e os erros servem como aprendizado.
No entanto, a principal diferença entre um relacionamento abusivo e um saudável é que em boas relações, as pessoas melhoram a cada dia e erros não se repetem.
Em relacionamentos abusivos, por outro lado, isso não ocorre. Mais do que erros repetidos, acontecem maldades. Há a presença de crueldade intencional, o que não acontece em relações saudáveis.
Em bons relacionamentos, as pessoas podem ter ideias divergentes, mas nunca, de forma alguma:
Dentro desse cenário, a vítima geralmente pensa que o que ela vive é normal e que todo relacionamento é assim. Acredita que como nenhum relacionamento é perfeito o dela também não precisa ser.
Entretanto, em uma relação amorosa saudável, o parceiro não machuca, não agride, não manipula, não controla e não vive em guerra. E você não precisa pisar em ovos e viver com medo. Parceiros saudáveis agregam coisas boas um na vida do outro e não o contrário.
Sair de um relacionamento abusivo exige muito emocionalmente da vítima. Por isso, é essencial ter ajuda profissional, de amigos e familiares para receber apoio e uma visão racional da situação.
Geralmente, a decisão de sair de um relacionamento abusivo acontece várias vezes ao longo do tempo, especialmente em momentos de “lucidez”, quando a vítima consegue pensar racionalmente, entendendo que aquilo faz mal e que sair daquela situação é urgente.
Mas, basta um gesto atencioso ou um pedido de desculpas para a vítima desistir do término e voltar para o ciclo da violência. Por isso, ao decidir sair de um relacionamento abusivo, você precisa:
Na maioria das vezes, a família e amigos da vítima já sabem da situação que ela vive e querem também que ela saia o quanto antes daquela relação.
Ao comunicá-los da sua decisão, procure ficar o máximo de tempo junto a eles e sempre em contato. Por serem pessoas que veem a situação sem a parte emocional, conseguem te nortear quanto a atitudes que deve tomar e mostrar, sempre que esquecer, o quanto aquele relacionamento abusivo te fazia mal.
Notifique-os de tudo o que sente e não esconda seus sentimentos. Se pensar em voltar, em ceder, sempre os comunique para que eles possam te ajudar a recobrar a razão.
Na hora que em que se decide terminar, você provavelmente está no ápice do sofrimento. Por isso, é o momento ideal para anotar tudo o que está sentindo.
Faça uma lista com todas as situações que o abusador te desrespeitou, te humilhou, te agrediu física, verbal ou emocionalmente.
Assim, quando o calor do momento passar e o sentimento de raiva abrandar – porque sempre abranda – você lê o que escreveu e relembra de tudo o que aconteceu.
Um dos sinais clássicos de relacionamentos abusivos é fazer a vítima acreditar que ninguém mais sentiria desejo por ela. Saiba que isso é mentira.
Existem bilhões de pessoas no mundo. Não há uma tampa para cada panela. Há apenas pessoas dispostas a fazer um relacionamento dar certo.
Ao sair dessa situação, você com certeza encontrará pessoas boas no seu caminho e dispostas a construir uma boa relação. Relembre e recobre sua autoestima.
Saia com amigos, se arrume, veja novas pessoas. Entenda e perceba o seu valor. Sair de um relacionamento abusivo exige energia durante o término e depois também. É essencial que, nesse processo, você se conheça sem o antigo parceiro e relembre quem você é.
Autoconhecimento é fundamental para uma boa autoestima.
Se você se identificou com os sinais e situações de um relacionamento abusivo, mas ainda cogita permanecer nessa relação, se questione:
Sair de um relacionamento abusivo não é fácil. Se fosse, eles sequer existiriam. Isso porque, embora em momentos de maior racionalidade a vítima consiga perceber que essa relação não faz bem a ela, o processo de se desvincular do abusador é complexo e doloroso.
Dificilmente a pessoa abusiva irá aceitar tranquilamente o término. Por isso, o apoio psicológico é indispensável nesses casos. Além da ajuda da família e amigos, que estão presentes no dia a dia, um profissional consegue te ajudar a se manter firme em sua decisão.
Com uma consulta online, o terapeuta orienta o paciente de forma que ele consiga recuperar sua autoestima. As sessões ajudam a se conhecer melhor, se ver e perceber quem se é sem o antigo parceiro.
Na plataforma da Conexa Saúde, você encontra diversos psicólogos que atendem online disponíveis para ajudar você a superar um relacionamento abusivo. Você consegue agendar uma consulta em poucos minutos e ser atendido logo em seguida.
Em momentos de término de relacionamento, podem acontecer crises de ansiedade e de pânico, onde a consulta com o psicólogo ajuda a aliviar os sintomas imediatamente. Este é um dos excelentes benefícios da telemedicina.
Você merece um amor que te respeite, te valorize e te faça crescer. Não tenha medo de buscar ajuda e reconstruir a sua liberdade.
Publicado por: Jose Carlos