Recentemente, a BBC internacional apresentou uma história sobre um casal japonês que tomou a decisão não convencional de manter um casamento legal vivendo em casas diferentes. Apesar de os dois compartilharem uma criança e se encontrarem duas ou três vezes por semana, a emissora mostrou como cada parceiro abraçou um estilo de vida individual e independente, distinto um do outro.
“O motivo pelo qual cada vez mais casais escolhem o casamento separado é porque eles desejam manter seu estilo de vida“, diz Hiromi Takeda, que adotou um casamento separado com seu marido, Hidekazu Takeda, para “combinar os benefícios de estar casado e ser solteiro“. Para Hiromi, a maior vantagem de estar casada é ter alguém em quem possa confiar plenamente.
Vocês são ótimos parceiros, mas péssimos companheiros de casa?
Mudar para a mesma casa que seu parceiro traz mudanças significativas na dinâmica do relacionamento. Muitas pessoas procuram terapia logo após irem morar junto, com dúvidas sobre como lidar com conflitos relacionados a tarefas domésticas, despesas e falta de privacidade. Em muitos casos (com um pouco de trabalho), esses conflitos se resolvem, e o relacionamento prospera à medida que ambos encontram um equilíbrio e começam a desfrutar dos muitos benefícios de morar juntos. No entanto, existem casais que são melhores parceiros do que companheiros de casa. Viver separadamente pode ser a solução certa se você e seu parceiro não conseguem chegar a um acordo em questões como:
Vocês têm restrições alimentares ou hábitos que causam inconvenientes um ao outro? Vocês têm ideias conflitantes sobre espaço pessoal? Existem considerações de saúde, financeiras ou outras responsabilidades que seriam melhor gerenciadas individualmente em vez de em conjunto? Se alguma dessas considerações parecer problemática em vez de empolgante no contexto do seu relacionamento, talvez seja interessante considerar um relacionamento vivendo separados, em vez de uma coabitação ou casamento tradicional. Um estudo de 2017 publicado no European Journal of Population descobriu que relacionamentos com parceiros mais velhos tinham mais chances de prosperar como relacionamentos separados. Isso provavelmente ocorre porque pessoas mais velhas (em comparação com pessoas mais jovens) enfatizam limites estritos quando se trata de espaço pessoal e finanças.
Existem evidências científicas que mostram que viver separados, estando juntos, pode ter alguns benefícios específicos para fortalecer um relacionamento de longo prazo. Por exemplo, um estudo de 2019 publicado na revista The Sociological Review descobriu que viver distante e ter maior satisfação com o parceiro pode aumentar o desejo de morar junto no futuro e dá aos casais uma visão mais clara de como seria um casamento de coabitação ideal.
Um relacionamento em que os envolvidos moram separados também provavelmente levará a diferentes resultados, dependendo dos objetivos sociais, culturais e pessoais das pessoas envolvidas. O mesmo estudo descobriu que em países como Romênia ou Bulgária, onde as famílias são mais tradicionais, as pessoas viam essa forma de relacionamento como uma fase transitória antes do casamento; já em países como França, onde a estrutura familiar é muito mais moderna, os relacionamentos separados eram vistos como uma alternativa à estrutura familiar tradicional.
Essa configuração pode sim funcionar bem para alguns casais. Esse cenário pode acontecer por diversos motivos, que pensaremos juntas aqui, e por razões que vão variar de casal para casal. Logo, não há uma regra sobre como viver neste formato.
O casal precisa encontrar o seu jeito de funcionar. É possível, sim, ter projetos e objetivos em comum, mesmo morando em endereços diferentes. O que vai estabelecer a identidade conjugal não é o mesmo endereço, e sim, a dinâmica do casal e a qualidade do vínculo afetivo.
Claro que como tudo na vida, este modelo tem vantagens e desvantagens. Por exemplo, muitos casais que optaram por este modelo relatam que as casas separadas deixam mais espaço para sentir saudades e menos para o desgaste da rotina. Há uma tendência de aproveitar com mais qualidade e intensidade o tempo juntos, já que é reduzido. Como no namoro, tempo dedicado ao casal com menos problemas do cotidiano.
Por outro lado, pode ser desafiador na criação e educação de filhos (as), principalmente quando crianças e adolescentes. E, ainda, conflituoso em relação a emoções como o ciúme, por exemplo. Há também que se pensar sobre dinheiro, pois os custos são dobrados, logo, é preciso pensar também nas condições financeiras para viver neste cenário.
Nos moldes convencionais, o casamento pressupõe a união sob o mesmo teto com a pretensão de garantir segurança, conforto e a finalidade de constituir uma família. Porém, a atual sociedade é marcada também pelo individualismo, que é o foco em si mesmo. Ele não precisa ser um marcador ruim pois nos permite fazer escolhas, inclusive a forma como queremos nos relacionar. Aqui me vem uma reflexão: será que viria daí o interesse maior em viver separados, porém juntos?
Por questões práticas ligadas a aproveitar oportunidades de estudos ou trabalho em outro lugar;
Para decidirem depois se vão morar juntos ou não;
Por questões familiares, como cuidar de pais e mães idosos em outra cidade;
Por cuidados com filhos(as) de relacionamentos anteriores;
Pela experiência de viver uma relação com mais liberdade, com mais espaço e independência, ainda que com responsabilidade e compromisso. Uma forma de resistir às normas tradicionais de relacionamentos (olha a individualidade aqui!).
A configuração familiar de viver separados, porém juntos é para todo e qualquer casal? Não! Cada relacionamento é único. As demandas individuais e do casal devem ser levadas em consideração para decidir sobre essa configuração. É preciso encontrar equilíbrio prático e emocional para que funcione para todas as partes envolvidas.
Como sempre digo, é preciso saber se comunicar! A comunicação aberta, a honestidade e a confiança mútua são ingredientes fundamentais para que essa escolha funcione e se mantenha o compromisso emocional, romântico, econômico, parental e conjugal.
Conclusão
Precisamos entender que um casamento bem-sucedido pode ter significados diferentes para pessoas diferentes. Hoje em dia, os papéis de gênero que tradicionalmente atribuímos a homens e mulheres, o status parental e o contexto cultural e social dos indivíduos desempenham um papel importante na evolução dos relacionamentos ao longo do tempo. O que antes era um motivo de ruptura matrimonial pode agora ser uma oportunidade para evoluir e se adaptar às necessidades da sociedade moderna.
Por: Diário do aço
Editado por: José Carlos