Com a decisão, já foi realizado o depósito inicial de mais de R$ 1,5 milhão, e o restante do pagamento será feito de forma parcelada ao longo deste ano e nos próximos exercícios. O caso integra uma execução centralizada iniciada em 2020. Essa ação está ligada a um processo que se arrasta desde 2014 e envolve uma das mais emblemáticas disputas trabalhistas da região.
O acordo também inclui a entrada da Tectônicas Mineração Ltda., que passa a assumir responsabilidade solidária pelo pagamento da dívida e poderá atuar como operadora do empreendimento. A autorização, no entanto, não libera automaticamente a exploração mineral. Ela segue condicionada às licenças dos órgãos competentes.
Para o juiz Albeniz Martins e Silva Segundo, responsável pela homologação, o desfecho representa mais do que a resolução de uma dívida. Ele destacou que o caso simboliza um avanço em uma das histórias mais marcantes de Serra Pelada. Essa história mistura expectativa, exploração e frustração de milhares de trabalhadores ao longo das últimas décadas.
Pelo acordo, além do valor já pago, estão previstas duas parcelas semestrais — em julho deste ano e janeiro de 2027 — e outras 48 parcelas adicionais até a quitação total do débito.
A região sul do Pará viveu, a partir do início da década de 1980, um dos maiores ciclos de mineração da história do país. Impulsionado pela promessa de enriquecimento rápido com a extração de ouro, o garimpo de Serra Pelada atraiu mais de 100 mil trabalhadores. Em pouco tempo, ele se transformou no maior garimpo a céu aberto do mundo.
No auge da atividade, em 1983, foram retiradas cerca de 14 toneladas de ouro em apenas um ano. Ao longo de aproximadamente uma década, a produção total ultrapassou 42 toneladas. Esse ouro foi extraído manualmente por milhares de garimpeiros que trabalhavam em condições extremamente precárias em uma enorme cratera aberta no sudeste do Pará.
A origem da corrida do ouro é cercada de relatos e versões. A mais conhecida aponta que um pequeno achado feito por um antigo proprietário de terras, no fim dos anos 1970, teria sido o estopim para a chegada em massa de milhares de pessoas. A notícia se espalhou rapidamente. Ela transformou a região em um dos maiores polos de garimpo do mundo.
Diante do caos instalado, o governo federal enviou para a área o coronel Sebastião Rodrigues de Moura, conhecido como Curió, que já havia atuado no combate à Guerrilha do Araguaia. Quando chegou, encontrou dezenas de milhares de homens explorando o local de forma desordenada. Por isso, adotou medidas rígidas de controle, como restrições à entrada de mulheres, consumo de álcool e porte de armas.
O próprio nome de Curió acabou marcando a história da região, dando origem ao município de Curionópolis, que surgiu no entorno do garimpo. Com as restrições impostas, muitas famílias passaram a se estabelecer fora da área de extração. Elas formaram o núcleo urbano que mais tarde se tornaria a cidade.
Após o auge, a produção entrou em queda livre. Em 1990, já não passava de 250 quilos de ouro por ano. Dois anos depois, em 1992, a mina foi oficialmente desativada por decreto presidencial. O imenso buraco deixado pela exploração, com cerca de 180 metros de profundidade, acabou se enchendo de água. Assim, permanece até hoje como uma das marcas mais simbólicas daquele período.
Por: José Carlos
Fonte: Diário do Pará