
A Polícia Federal (PF) investiga práticas irregulares no Banco Digimais, associando a instituição a ações fraudulentas semelhantes às que levaram à queda do Banco Master. De acordo com as apurações, o Digimais teria inflacionado o valor de seus ativos, sem a devida cobertura financeira, formando um patrimônio fictício que escandaliza o setor financeiro. Em um caso específico, o banco teria elevado o valor de um ativo adquirido em 2023 de R$ 31 milhões para impressionantes R$ 230 milhões, gerando um suposto incremento patrimonial de R$ 199 milhões.
Os alertas emitidos pela PF não se limitam a essa operação isolada. O relatório indica que o Banco Digimais, que está sob a liderança de Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus e proprietário da TV Record, adota estratégias financeiras que colocam em risco a credibilidade do sistema bancário. Outro episódio mencionado no documento revela que dois ativos que inicialmente somavam R$ 71 milhões foram reavaliados de forma a atingir R$ 174,5 milhões, possibilitando uma manipulação acentuada do patrimônio do banco.

Líder religioso não mora no Brasil e não foi alvo da operação. (Foto: Reprodução/Facebook/Edir Macedo (ampliada com inteligência artificial))
A investigação sugere que o Digimais replicou várias irregularidades já detectadas em inquéritos sobre o Banco Master, incluindo a utilização do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para emitir títulos que oferecem rentabilidades desproporcionais com relação aos parâmetros de mercado. Em trechos do relatório, a PF destaca que, explorando a assimetria de informação e a confiança dos depositantes, a diretoria do banco teria manipulado os balanços. Estas práticas irregulares visam ocultar do controle regulatório a elasticidade de sua carteira de crédito.
Reforçando a gravidade da situação, a Justiça Federal de São Paulo expediu mandados de busca e apreensão que visam autoridades do Banco Digimais. As ações judiciais são um desdobramento das investigações em curso e buscam aprofundar a análise das práticas financeiras do banco, que agora se vê sob um olhar atento das autoridades competentes. A situação levanta a necessidade de uma revisão cuidadosa das normas e práticas adotadas por instituições financeiras em território nacional.
No dia 8 de abril, o banco BTG Pactual anunciou ao mercado que firmou um acordo para a compra da instituição. Em meio ao problema financeiro e às supostas fraudes, a operação ainda precisa passar pelo BC e pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).
Logo em sua página inicial, o Digimais exibe uma nota assinada no dia 20 de maio condenando reportagens sobre as supostas irregularidades, que teriam sido produzidas "sem qualquer lastro na realidade". Para o banco, as divulgações representam uma violação à ética jornalística.
"A instituição permanece firme em seu propósito, operando com a segurança e a integridade que sempre nortearam suas atividades, à disposição de seus clientes, parceiros e das autoridades competentes para quaisquer esclarecimentos legítimos", conclui.
A eventual compra do Banco Digimais pelo BTG Pactual ficou mais difícil depois da operação da Polícia Federal desta terça-feira (23). Fontes que acompanham a negociação afirmam que a solução dependia do cumprimento de uma série de condições que ainda não foram atendidas. Diante da ação da PF, a avaliação mais concreta é que o BTG desista do negócio.
A PF cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços do Digimais e ao seu controlador, o bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus e dono da Record. A operação investiga suspeitas de fraudes contra o Sistema Financeiro Nacional. A Justiça também determinou o bloqueio de 670 milhões de reais de diretores do banco, incluindo Macedo. O bispo não foi alvo da operação porque mora nos Estados Unidos.
Em manifestação à Justiça, a PF afirma que gestores do Digimais manipularam demonstrativos contábeis e registros regulatórios para tentar enganar o Banco Central, ocultando a real situação financeira da instituição.
O BTG anunciou no início de abril um acordo para comprar o Digimais, mas o negócio depende de um processo competitivo, no qual outros bancos podem apresentar propostas, e das aprovações do Banco Central e do Cade.
Por: José Carlos
Mín. 21° Máx. 36°