Economia MENORES SALÁRIOS
MESMO COM MAIS ESCOLARIDADE, MULHERES À FRENTE DE UM NEGÓCIO TÊM RENDA 24% MENOR QUE OS HOMENS
MESMO COM MAIS ESCOLARIDADE, MULHERES À FRENTE DE UM NEGÓCIO TÊM RENDA 24% MENOR QUE OS HOMENS
08/03/2025 17h31
Por: Redação Fonte: Jose Carlos

 

Mesmo com mais escolaridade, mulheres à frente de um negócio têm renda 24% menor que os homens

Números apresentaram grande variação se comparados ao início da série histórica.

 

As empreendedoras brasileiras estão cada vez mais escolarizadas. Entretanto, essa evolução no nível de ensino não tem sido acompanhada de um aumento proporcional na renda. Entre os anos de 2012 e 2024, as mulheres donas de negócios obtiveram uma evolução de 16,5 pontos percentuais na faixa de Ensino Superior Incompleto ou mais; já entre os homens, esse índice somou um aumento menor, de 9,2 pontos percentuais.

De acordo com pesquisa realizada pelo Sebrae, do universo de donas de negócios, 72,4% têm ensino médio completo ou mais; e o ensino superior já é realidade para quase 29% dessas mulheres. A vantagem do percentual de empresárias com Ensino Superior ou mais em relação aos homens que empreendem é de mais de 13 pontos percentuais.

 

Apesar dessa escolaridade maior, o rendimento médio real das mulheres donas de negócios no quarto trimestre de 2024 foi de R$ 2.867, o que representa 24,4% menos do que os homens que empreendem. Um dado que serve de alento é que essa diferença já foi maior: de 30,3% no quarto trimestre de 2012, início da série histórica.

“Um dos motivos para essa condição ainda muito desigual pode estar na divisão de tarefas nos lares brasileiros. Infelizmente, sabemos que a cultura da rotina doméstica, da forma como se dá hoje, massacra o potencial de muitas futuras empresárias e dificulta o crescimento de vários negócios liderados por mulheres”, argumenta a diretora de Administração e Finanças do Sebrae, Margarete Coelho.

 

O chamado “trabalho invisível” – que envolve os cuidados com a casa, os filhos e até mesmo os idosos – provavelmente está por trás também de outro dado apontado pelo levantamento: a média de horas trabalhadas das mulheres donas de negócios no último trimestre de 2024 foi de 35 horas, total que se manteve estável ao longo da série histórica. No outro extremo, os homens que comandam uma empresa têm uma média maior de dedicação, chegando a 41 horas.

Mais mulheres chefes de família

Os mais de dez anos que separam a primeira e a mais recente análise da pesquisa também trazem mudanças significativas no papel econômico da mulher na família. Segundo o estudo, o número de mulheres donas de negócio e que são também chefes de domicílio subiu nos últimos anos, chegando a mais da metade (52,3%) do total de empreendedoras. Antes de 2017, a participação do companheiro no sustento da casa era maior.

O estudo “Empreendedorismo Feminino – Sob a Ótica da PNAD Contínua”, realizado pelo Sebrae com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua – PNAD Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, revela que há atualmente 10,4 milhões de mulheres empreendedoras no país, um recorde na série histórica, e que representa um crescimento de aproximadamente 42% no período de 2012 a 2024.

No total, o Brasil conta com 30,4 milhões de donos de negócios. E apesar de 51,7% da população em idade ativa ser composta por mulheres, elas são apenas 34,1% do total dos empreendedores.

Mulheres em cargos de liderança ganham R$ 40 mil a menos por ano do que homens.

 

Mesmo com avanço em legislações para equidade de gênero nas condições de trabalho, as mulheres ainda sofrem com remunerações menores e menos oportunidades para estarem empregadas. Um boletim especial do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) aponta que diretoras e gerentes ganharam em média por mês R$ 6.798, enquanto homens, nos mesmos cargos, R$ 10.126, uma diferença de R$ 3.328 mensais. Por ano, esse valor equivale a R$ 40 mil a menos para elas.

Os dados têm como base a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), do 3º trimestre de 2024. Segundo o instituto, o Brasil contava com 91,2 milhões de mulheres com 14 anos ou mais, das quais 48,1 milhões faziam parte da força de trabalho. Dessas, 44,4 milhões estavam ocupadas no período, e 3,7 milhões, desocupadas.

 

Na menor camada de remuneração, as mulheres que ganham até um salário mínimo são maioria, 37% contra 27% dos homens. Além disso, o rendimento médio real mensal para elas é menor: R$ 2 697, enquanto para eles, R$ 3.459. Na mesma base de comparação, no caso das trabalhadoras com nível superior, o ganho é de R$ 4 885, R$ 2.899 a menos do que o recebido pelos trabalhadores (R$ 7.784). Além disso, conforme o levantamento, em nenhum Estado brasileiro a média da remuneração mensal feminina supera a masculina.

O tempo tem grande influência nos ganhos salariais. A jornada de trabalho semanal remunerada masculina supera a feminina em 4,3 horas. Já o trabalho feminino sem ganhos financeiros supera em 10 horas o dos homens. O boletim da Dieese mostra que as mulheres gastam 21 dias ou 499 horas a mais em um ano com afazeres domésticos.

 

O cenário continua desigual por conta da persistência de barreiras estruturais e culturais, avalia a sócia do escritório Vernalha e Pereira, Angélica Petian. Segundo ela, as empresas precisam criar ambientes mais inclusivos, com a “implementação de programas de mentoria para mulheres, políticas de diversidade e canais de denúncia eficazes”.

A Lei de Igualdade Salarial entre Homens e Mulheres (proposição 14.611/2023) trouxe avanços para atenuar a desigualdade de gênero nesse sentido, com mais transparência salarial e penalidades para empresas que não cumprirem determinações. Porém, ainda não é suficiente para ampliar a equidade nas remunerações entre homens e mulheres.

O Dieese aponta que, para haver mais avanços práticos é preciso que manter um debate constante e ampliar a participação de mulheres em espaços de negociações e cargos de liderança. A discussão deve ir além do período que antecede o Dia Internacional das Mulheres, em 8 de março.