

O Sindicato Nacional dos Aposentados (Sindnapi/FS) foi um dos alvos da operação Sem Desconto, deflagrada pela Polícia Federal nesta quarta-feira, 23, que investiga fraudes do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). A associação tem José Ferreira da Silva, conhecido como Frei Chico, irmão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), como vice-presidente.
Segundo informações do portal R7, o sindicato aparece na lista de suspensos pela Controladoria-Geral da União (CGU), e terá que responder pelas fraudes apontadas. No último ano, o Sindnapi recebeu cerca de R$ 77,1 milhões somente de contribuições.
Após a repercussão da operação, Lula orientou o ministro da Previdência Nacional, Carlos Lupi (PDT), a demitir Alessandro Stefanutto, presidente do INSS, o que ocorreu nas horas seguintes.
José Ferreira da Silva é vice do Sindnapi, uma das entidades investigadas por fraude bilionária contra aposentadosJosé Ferreira da Silva é vice do Sindnapi, uma das entidades investigadas por fraude bilionária contra aposentados
Irmão mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, José Ferreira da Silva, conhecido como Frei Chico, tem uma longa trajetória marcada pela militância sindical e pela atuação nos bastidores da política operária.
Aos 83 anos, ele é vice-presidente do Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos do Brasil (Sindnapi) — uma das 11 entidades investigadas na Operação Sem Desconto, que apura fraudes de até R$ 8 bilhões envolvendo descontos indevidos nos benefícios do INSS entre 2016 e 2024.
Nascido em Caetés (PE), Frei Chico foi o primeiro da família Silva a migrar para São Paulo. Tornou-se soldador e ingressou no sindicato dos metalúrgicos do ABC nos anos 1960. Foi dele a iniciativa de levar o irmão Lula às primeiras reuniões do sindicato, em 1969, quando o futuro presidente ainda trabalhava em uma metalúrgica em São Bernardo do Campo.
Na época, Frei Chico não pôde concorrer à diretoria sindical porque sua empresa já tinha um representante — por isso indicou Lula como suplente. Foi o ponto de partida da carreira política do petista. Em diversas entrevistas, Lula atribuiu ao irmão a base de sua formação política.
Militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), Frei Chico atuou na clandestinidade durante a ditadura militar. Em 1975, foi preso e torturado pelo DOI-CODI, inclusive no mesmo período e local onde o jornalista Vladimir Herzog foi morto. As sessões incluíram choques elétricos e pau-de-arara. A prisão de Frei Chico abalou Lula, que, ao saber da tortura, radicalizou sua postura política e intensificou sua atuação sindical.
Foi também por influência do irmão que Lula manteve vínculos com setores da esquerda que atuavam fora dos canais institucionais, ainda que ele próprio optasse por trilhar o caminho institucional da política sindical.
Conhecido por sua discrição, Frei Chico sempre foi visto como o resolvedor dos problemas da família Lula. Em 2012, por exemplo, foi ele quem buscou ajuda para um meio-irmão hospitalizado em Guarujá. Mesmo com sua posição na diretoria do Sindnapi, evita os holofotes e raramente aparece em agendas públicas ao lado do presidente.
Filiado ao Sindnapi desde 2008, assumiu a vice-presidência da entidade em 2023. O sindicato é acusado de participar de esquemas que permitiram descontos indevidos de mensalidades associativas diretamente nos benefícios de aposentados e pensionistas.
Frei Chico também foi investigado na Operação Lava Jato, em apurações sobre movimentações financeiras e viagens internacionais de familiares de Lula. Em 2016, seu nome apareceu ligado a duas viagens ao Panamá. A denúncia, no entanto, foi considerada inepta pelo juiz Ali Mazloum, da 7ª Vara Criminal Federal de São Paulo, e a rejeição foi mantida por unanimidade no TRF-3.
O envolvimento indireto de Frei Chico na crise que abala o INSS representa um elemento sensível para o governo Lula, especialmente num momento em que o Palácio do Planalto tenta recuperar o controle da pauta da segurança social e da imagem institucional do INSS. A Advocacia-Geral da União já criou um grupo especial para recuperar os valores desviados, e o presidente determinou a exoneração de diretores envolvidos.
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