
O arroz é um alimento básico para bilhões de pessoas ao redor do mundo, mas um novo estudo sugere que as mudanças climáticas podem aumentar os níveis de arsênio contidos no grão — Foto: INTERNET
O arroz é um alimento básico para mais da metade da população mundial. É consumido diariamente por mais pessoas do que o trigo ou o milho.
Portanto, é com certa preocupação que os cientistas revelaram uma descoberta recente: à medida que as emissões de carbono aumentam, e a Terra continua a esquentar, o mesmo acontece com os níveis de arsênio no arroz.
A presença de arsênio no arroz é conhecida há muito tempo como um problema.
Quase todo arroz contém arsênio. Esta substância química nociva, de ocorrência natural, pode se acumular no solo dos arrozais, contaminando os grãos de arroz cultivados. Mas as quantidades encontradas nos grãos de arroz podem variar consideravelmente, desde valores bem abaixo dos limites recomendados pelos órgãos reguladores até valores muito superiores.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) explica que, como o arsênio é encontrado na crosta terrestre, pode estar presente na água e em alimentos. Por isso, há limite máximo tolerado estabelecido, que é a concentração máxima do contaminante legalmente aceita no alimento.
A concentração de arsênio permitida no Brasil é de 0,20 mg/kg para arroz branco e 0,35 para arroz integral.
Um dos primeiros a pesquisar o arsênio em alimentos no Brasil, Bruno Lemos Batista, professor de química na Universidade Federal do ABC (UFABC), explica que as últimas pesquisa que fez mostraram que os valores estavam dentro das recomendações mundiais e dos limites da legislação brasileira. A Anvisa fez a última avaliação em 2023, quando também identificou normalidade.
No entanto, consumir até mesmo pequenas quantidades de arsênio inorgânico por meio de alimentos ou água potável pode levar a uma série de problemas de saúde, como câncer, doenças cardiovasculares e diabetes.
Lemos explica, porém, que "se colocássemos limite zero de arsênio nos alimentos, poderíamos não ter alimentos para consumir".
No momento, os limites que temos para o arroz apontam a uma pouca incidência de doenças causadas pelo arsênio.
"Isso minimiza os riscos e permite o consumo, mas o risco ainda existe", avalia Lemos.
Pesquisadores ao redor do mundo têm estudado maneiras de reduzir os níveis de arsênio no arroz — e, enquanto isso, há maneiras de cozinhá-lo que podem extrair parte deste elemento nocivo dos grãos.
Mas um novo estudo sobre o acúmulo de arsênio inorgânico mostrou que ele pode se tornar um problema maior devido às mudanças climáticas. Os pesquisadores cultivaram 28 variedades diferentes de arroz em quatro locais diferentes na China em condições experimentais durante um período de 10 anos.
Eles descobriram que os níveis de arsênio no arroz aumentavam à medida que os níveis de dióxido de carbono (CO₂) na atmosfera e as temperaturas subiam.
ENTENDA:
O arroz, alimento básico para mais da metade da população global, pode se tornar um veículo ainda mais tóxico para o consumo humano até 2050, segundo um estudo publicado na revista The Lancet Planetary Health. A pesquisa revela que as mudanças climáticas devem elevar significativamente os níveis de arsênio inorgânico (iAs) nos grãos, aumentando os riscos à saúde pública em escala global.
Realizado por cientistas da Universidade de Columbia (EUA), em parceria com a Academia Chinesa de Ciências e a Universidade Johns Hopkins, o estudo é o primeiro a examinar com profundidade os efeitos combinados do aumento da temperatura global e das emissões de CO₂ sobre o acúmulo de arsênio no arroz.
“Com o avanço do aquecimento global, a contaminação do arroz por arsênio poderá aumentar drasticamente, elevando os riscos de câncer, doenças cardíacas, diabetes e outros problemas graves de saúde”, alerta Lewis Ziska, principal autor do estudo e pesquisador da Escola de Saúde Pública Mailman da Universidade de Columbia.
O arsênio é um metal tóxico naturalmente presente em solos e águas subterrâneas, mas sua absorção pelo arroz tende a se intensificar sob certas condições ambientais — entre elas, temperaturas elevadas e altos níveis de dióxido de carbono na atmosfera.
A equipe analisou 28 variedades de arroz em campo, ao longo de uma década, utilizando a técnica FACE (Enriquecimento de CO₂ em Ar Livre), além de modelos de projeção para sete países asiáticos: China, Índia, Bangladesh, Indonésia, Filipinas, Mianmar e Vietnã.
Além dos tipos de câncer já reconhecidos, o estudo aponta que a exposição crônica ao arsênio está associada a:
“Esses resultados revelam um impacto direto das mudanças climáticas sobre a qualidade nutricional e segurança alimentar de um dos alimentos mais consumidos no mundo”, reforça Ziska.
Para mitigar os impactos previstos, os pesquisadores defendem uma abordagem integrada que envolva:
O estudo traz um importante recado: as mudanças climáticas impactam não apenas a produção de alimentos, mas também sua qualidade e segurança. Isso reforça a necessidade urgente de políticas públicas que integrem agricultura, saúde e meio ambiente, sobretudo em regiões onde o arroz é a base alimentar.
“Além da água potável, o arroz já é a maior fonte de arsênio inorgânico na dieta de milhões de pessoas. Com o aquecimento global, isso tende a piorar”, concluem os autores.
FONTE: ROTA VERDE
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