
Adriana com o filho — Foto: Reprodução Mirror
Adriana Smith, de 30 anos, sofreu uma das mais brutais intersecções entre a maternidade e a política. Há três meses, uma jovem — que já era mãe de um menino de cinco anos — foi declarada com morte cerebral após complicações provocadas por coágulos no cérebro.
Grávida de nove semanas na época, ela teve atendimento inicial no Hospital Northside, em Atlanta (EUA), após relatar dores de cabeça fortes. Ela recebu medicação e voltou para casa. Mas no dia seguinte, seu namorado a encontrou com respiração ofegante e chamou uma ambulância. Adriana foi levada às pressas ao Hospital Universitário Emory, onde chegou o diagnóstico definitivo: morte cerebral.
Segundo a medicina, Adriana já não estava mais viva. Mas, por causa da gravidez e das leis antiaborto extremamente rígidas do estado da Geórgia, nos Estados Unidos, seu corpo foi ligado a aparelhos e desligado em suporte artificial de vida. Ela permanece assim até hoje, porque carrega um feto que, agora com cerca de 21 semanas, já foi evidenciado com hidrocefalia — acúmulo de líquido no cérebro, o que compromete seriamente sua saúde e chances de vida.
A chamada “lei do batimento cardíaco”, em vigor no Estado desde que a Suprema Corte dos EUA derrubou a jurisprudência do caso Roe vs. Wade, considera que o feto tem personalidade jurídica e, portanto, deve ser mantido em gestação enquanto possível.
A legislação proíbe o aborto a partir do momento em que há atividade cardíaca detectável — o que costuma ocorrer por volta da sexta semana de gravidez — e impede que familiares autorizem a interrupção mesmo em situações extremas como a de Adriana.
A família de Adriana está arrasada. O filho de cinco anos ainda visita o hospital e acredita que a mãe está apenas “dormindo”. "É uma tortura para mim. Vejo minha filha respirando, mas ela não está lá", desabafa April Newkirk, mãe de Adriana, ao tabloide britânico Mirror. Ela conta que a família jamais teria escolhido esse caminho. "Essa decisão deveria ter sido nossa. Agora ficamos nos perguntando que tipo de vida esse bebê terá."
Além da dor emocional, o drama também é financeiro: as contas hospitalares se acumulam a cada dia. A equipe médica afirma que desligar os aparelhos seria uma “área legal cinzenta”. A justificativa se baseia na legislação atual da Geórgia, que proíbe o aborto após a detecção de lesões cardíacas fetais, o que pode ocorrer por volta da sexta semana de gestação. A lei prevê abordagens para salvar a vida da gestante — o que, no caso de Adriana, já não se aplica.
Em nota oficial, o sistema de saúde Emory Healthcare declarou que “utiliza o consenso de especialistas clínicos, literatura médica e orientação jurídica para apoiar os profissionais na tomada de decisões de tratamento individualizadas, conforme as leis da Geórgia”. Afirmou ainda que “a segurança e o bem-estar dos pacientes seguem sendo prioridade”.
Mas para muitos, essa declaração não basta. A repercussão do caso gerou revolta nas redes sociais e foi amplificada por profissionais de saúde, como a Dra. Jennifer Lincoln, ginecologista e obstetra de Portland, Oregon, que publicou um vídeo no TikTok com mais de quatro milhões de visualizações.
"Eles estão mantendo viva uma mulher grávida com morte cerebral porque ela está com 20 semanas de gestação. E disseram que não podem desligar os aparelhos, pois isso seria um aborto", resumiu. “E seria uma coisa se fosse o desejo dela ou de sua família. Mas é contra a vontade deles. Ela é literalmente apenas uma incubadora agora. Enquanto o filho mais velho a observa e pensa que ela está apenas 'dormindo'. Se isso não te faz vomitar, então você, meu amigo, é quem está morto por dentro.”
Desde a revogação da decisão da Suprema Corte dos EUA no caso Roe vs. Wade em 2022 — que garantia o direito ao aborto desde 1973 — estados como a Geórgia adotaram legislações cada vez mais restritivas, mesmo em situações-limite como a de Adriana.
Enquanto isso, April e sua família continuam visitando o corpo de Adriana no hospital, esperando por respostas que talvez nunca venham. “A cada dia que passa, são mais custos, mais traumas, mais perguntas”, lamenta a mãe. "Minha filha está morta, mas ainda está presa aqui para ser encubadora. E tudo porque o Estado a vê, agora, como um útero que respira."
Editado por: José Carlos
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