

Após negar informações sobre um suposto custo milionário de R$ 36 milhões, Preta Gil mantém o foco no tratamento experimental contra o câncer colorretal que a artista iniciou nos Estados Unidos. A cantora, de 50 anos, que passou por uma cirurgia complexa no fim de 2023, decidiu apostar em uma abordagem inovadora, ainda fora dos protocolos tradicionais usados no Brasil. Mas, afinal, como funciona esse tipo de tratamento?
Segundo especialistas da área oncológica, o tratamento que Preta busca nos EUA se enquadra dentro do que é chamado de medicina personalizada ou medicina de precisão. Nessa abordagem, os médicos avaliam mutações genéticas específicas do tumor de cada paciente para indicar terapias mais eficazes e com menos efeitos colaterais.
A cantora Preta Gil comoveu a todos ao compartilhar, em 2023, a sua luta contra um câncer conhecido como colorretal. Seu caso chamou a atenção para o diagnóstico da doença que vem se tornando cada vez mais frequente na população jovem. Mas o que explicaria esse crescimento? Um estudo realizado pela Universidade da Califórnia em San Diego, nos Estados Unidos, se propôs a responder a essa pergunta. E suas descobertas são surpreendentes. A partir da análise dos dados, os pesquisadores identificaram que uma bactéria comum na infância poderia estar por trás do aumento alarmante dos casos.
Câncer de intestino pode estar associada a bactéria — Foto: Getty Images
A grande vilã seria a colibactina — uma toxina produzida por certas cepas da bactéria Escherichia coli (E. coli), que residem no cólon e no reto. Segundo os pesquisadores, a exposição a esse tipo de toxina na primeira infância é capaz de imprimir uma assinatura distinta no DNA das células do cólon, criando mutações e aumentando o risco de desenvolver o câncer colorretal antes dos 50 anos. Os resultados do trabalho foram publicados em abril na revista científica Nature.
Ao longo da pesquisa, foram analisados 981 genomas de câncer colorretal de pacientes com doença de início precoce e tardio em 11 países com níveis variados de risco de câncer colorretal. Os resultados trouxeram dados bem surpreendentes:
“Esses padrões de mutação são uma espécie de registro histórico no genoma e apontam para a exposição precoce à colibactina como uma força motriz por trás da doença de início precoce”, afirmou o autor sênior do estudo, Ludmil Alexandrov, professor do Departamento de Bioengenharia Shu Chien-Gene Lay e do Departamento de Medicina Celular e Molecular da UC San Diego. Estudos anteriores já identificaram mutações relacionadas à colibactina em cerca de 10 a 15% de todos os casos de câncer colorretal. No entanto, até o momento, esses trabalhos não distinguiram a doença entre início precoce e tardio.
De acordo com os pesquisadores, esse é o primeiro estudo a demonstrar um enriquecimento substancial de mutações relacionadas à colibactina, especificamente em casos de início precoce. Para eles, a situação é preocupante, uma vez que os casos da doença estão aumentando em jovens em pelo menos 27 países. Sua incidência em adultos com menos de 50 anos dobrou praticamente a cada década nos últimos 20 anos. Se as tendências atuais continuarem, o câncer colorretal deve se tornar a principal causa de morte relacionada ao câncer entre adultos jovens até 2030.
Embora o estudo tenha jogado um pouco de luz nas causas relacionadas à maior incidência de câncer de colorretal, ainda é preciso realizar mais pesquisas sobre o tema. Os pesquisadores já observaram que parte dos jovens diagnosticados com a doença não tem histórico familiar e possuem poucos fatores de risco, como obesidade ou hipertensão. Por isso, levantou-se a hipótese com relação à exposição ambiental ou microbianas ocultas.
“Quando começamos este projeto, não estávamos planejando nos concentrar no câncer colorretal de início precoce”, disse o co-primeiro autor do estudo, Marcos Díaz-Gay, ex-pesquisador de pós-doutorado no laboratório de Alexandrov. “Nosso objetivo original era examinar os padrões globais de câncer colorretal para entender por que alguns países têm taxas muito mais altas do que outros. Mas, à medida que analisamos os dados, uma das descobertas mais interessantes e impressionantes foi a frequência com que as mutações relacionadas à colibactina apareceram nos casos de início precoce.
A equipe identificou que os efeitos prejudiciais da colibactina surgem já no início do desenvolvimento do tumor — dados consistentes com estudos anteriores que mostram que tais mutações ocorrem nos primeiros 10 anos de vida. O estudo ainda revela que as mutações relacionadas à colibactina são responsáveis por aproximadamente 15% do que é conhecido como mutações no gene APC — algumas das primeiras alterações genéticas que promovem diretamente o desenvolvimento do câncer colorretal.
“Se alguém adquire uma dessas mutações aos 10 anos de idade pode estar décadas adiantado para desenvolver câncer colorretal, contraindo-o aos 40 anos em vez de 60”. O que os pesquisadores acreditam é que as bactérias produtoras de colibactina podem estar colonizando silenciosamente o cólon das crianças, iniciando mudanças moleculares em seu DNA e preparando potencialmente o terreno para o câncer colorretal muito antes de surgirem quaisquer sintomas.
Em uma nova fase, a equipe de pesquisa busca entender como as crianças estão sendo expostas às bactérias produtoras de colibactina e o que pode ser feito para prevenir ou mitigar esse tipo de situação. Além disso, o uso de probióticos vem sendo investigado como possibilidade para eliminar com segurança cepas bacterianas nocivas. Estão sendo realizados também testes de detecção precoce que analisam amostras de fezes em busca de mutações relacionadas à colibactina.
Mauro Donadio, oncologista da Oncoclínicas&Co, especialista em tumores do aparelho digestivo, explica que esta é uma das pesquisas mais recentes e significativas sobre a ligação entre o microbioma intestinal e o aumento do câncer colorretal em pessoas jovens. “A análise molecular indicou que as mutações associadas à colibactina frequentemente surgem nos primeiros 10 anos de vida, sugerindo que a toxina pode colonizar silenciosamente o intestino das crianças e iniciar alterações cancerígenas muito precocemente, décadas antes do diagnóstico clínico”, destaca.
No entanto, Donadio alerta que, obviamente, devem existir outros fatores além da bactéria E.Coli, que impulsionam a elevação dos casos da doença na parcela da população com menos de 50 anos. “Entre as possíveis razões para o aumento da incidência da doença em pacientes mais jovens, podemos incluir a epidemia de obesidade, fatores alimentares, o efeito de antibióticos no microbioma intestinal e o aumento da presença de diferentes mutações germinativas associadas ao câncer”, explica o especialista.
A identificação precoce de câncer colorretal em jovens ainda é um grande desafio. Segundo o médico da Oncoclínicas&Co, cerca de 20% a 30% das pessoas descobrem a doença em estágios avançados, situação que se agrava entre pacientes jovens. “Isso pode ser atribuído à ausência de sinais e sintomas típicos de 'bandeira vermelha'. Ao invés disso, esses pacientes apresentam sintomas não específicos e o diagnóstico acontece mais tardiamente, uma característica encontrada principalmente em pacientes jovens”, ressalta o médico.
Até o momento, o Brasil segue a recomendação de iniciar o rastreamento do câncer colorretal a partir dos 50 anos. Contudo, diante do crescimento da doença entre jovens, diversos países já reduziram essa idade para 45 anos. “Essa mudança acontece justamente pela elevada e crescente incidência da doença em pessoas com menos de 50 anos. Em alguns países, as sociedades médicas já têm recomendado em guidelines o início do rastreio a partir dos 45 anos”, afirma Donadio. “O rastreamento por meio de colonoscopia reduz a mortalidade pela doença, pois é capaz de detectar e tratar lesões em estágio muito inicial ou até mesmo as lesões pré-malignas, como pólipos intestinais”, complementa o especialista.
Um tumor que afeta o intestino grosso (cólon) e o reto. Geralmente começa como crescimentos benignos chamados pólipos, que ao longo do tempo podem se transformar em câncer.
Por:Crescer
Para casos iniciais, a cirurgia é o tratamento principal, podendo ser complementada com quimioterapia quando há fatores de risco para recidiva. Em casos avançados, quimioterapia, terapias-alvo e, mais recentemente, imunoterapia são as opções disponíveis, dependendo das características moleculares do tumor.
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