
Guilherme Cardoso com a enteada e Rachel Leidi abraçada com o brasileiro. Fotomontagem: reprodução/instagram
No dia 11 de julho, um designer brasileiro de 35 anos foi preso por agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), nas Ilhas San Juan (EUA). Guilherme Lemes Cardoso e Silva é acusado de estar com o visto vencido, apesar de já ter iniciado o processo para obter o “green card” (autorização definitiva para residir no país).
A operação aconteceu quando ele saía para buscar a filha. Segundo a esposa Rachel Leidig (36), ao menos sete viaturas sem identificação esperavam em uma estrada particular. Guilherme foi imobilizado, algemado nos pulsos e tornozelos e levado de barco até o continente.
Rachel está grávida de sete meses e relata que o casal se casou em abril, após a descoberta da gestação. O pedido do visto definitivo já havia sido protocolado por um advogado antes da prisão. Formado em direito em Goiânia, Guilherme trabalha como designer e ilustrador e vive nos EUA desde 2016.
Atualmente ele está no centro de detenção de Tacoma, em Washington. Antes de ser transferido para a unidade, ficou 38 horas em uma cela provisória em Ferndale, onde, segundo a esposa, dormiu no chão e passou mal com a comida. O consulado brasileiro acompanha apenas a integridade física do preso, sem poder intervir no processo.
Uma agente da ICE abriu a porta do carro dele e ordenou que saísse, dizendo que havia um mandado de prisão. Gui pediu para ver o mandado, mas ela respondeu que não precisava mostrar. Um outro agente o puxou para fora do carro, tomou seu celular — já que ele estava gravando a abordagem — e o empurrou contra o veículo para algemá-lo", explica.
Guilherme contou que os outros agentes, todos mascarados, estavam rindo e fazendo piadas. "Os agentes foram agressivos com ele até perceberem que Gui era uma pessoa instruída, trilíngue, e que exigia respeito. Durante todo o trajeto, os agentes continuaram fazendo piadas entre si, tirando fotos de Gui, além de lhe fazerem perguntas sobre sua vida pessoal e seu trabalho", afirma Rachel.
Ele foi levado a Ferndale, em Washington, onde ficou detido por dois dias. "As condições eram terríveis. Gui foi colocado com correntes que iam dos tornozelos aos pulsos, dormiu no chão e chegou a vomitar por causa da comida que lhe foi oferecida. Por lei, a ICE poderia mantê-lo nessas condições temporárias por até 12 horas, mas ele só foi transferido para o centro de detenção de Tacoma após 38 horas", diz.
Guilherme tentou explicar aos agentes que é formado em Direito no Brasil. "Em seguida, um agente entrou e disse que não haviam encontrado nenhum mandado de prisão, mas que o visto de trabalho de Gui estava vencido. Depois, outro agente apareceu e afirmou que ele havia sido detido porque o visto de turismo havia expirado. Ele recebeu muita desinformação", explica Rachel. "Ele não está no melhor estado mental, mas está se mantendo forte", acrescenta.
Em 18 de julho, Rachel visitou o marido no centro de detenção em Tacoma. "O tratamento geral foi terrível, e os agentes com quem lidei foram rudes e desrespeitosos", afirma. Segundo ela, um dos funcionários se recusou a entregar os pertences do esposo e ela precisou chamar o supervisor para resolver a situação.
"O ICE e aqueles que trabalham com o centro de detenção são tão desorganizados que cada interação com o sistema deles me faz sentir como se estivesse encurralada, batendo a cabeça contra a parede. Quando recebi os pertences do Gui, o telefone dele, que usou para gravar a abordagem, tinha 'desaparecido'", diz. Rachel explica que muitos detentos precisam de dinheiro, enviado por alguém que esteja fora, para comprar comida extra, se não, é preciso racionar a comida oferecida.
A vida nos EUA
O casal se conheceu em 2023 e decidiu se casar após a descoberta da gravidez. "Foi amor à primeira vista. A gente se conectou de uma forma muito profunda, com muita leveza. Nos casamos porque queríamos formar uma família juntos", conta Rachel.
Ela afirma que Guilherme, que vive nos EUA desde 2016, atua como designer e ilustrador para clientes de vários estados norte-americanos. "Ele é brilhante, talentoso, sensível. As pessoas adoram trabalhar com ele. Nunca conheci alguém tão comprometido com a arte e com a família."
A americana relata que ele sempre cuidou da filha com dedicação. "Ele é um pai incrível. A menina ama ele. Estava animada para ter um irmãozinho.
Ela conta que o irmão construiu uma trajetória artística sólida nos EUA. "Hoje ele tem trabalhos lindos espalhados por vários lugares do país. Criou uma identidade, amadureceu e se tornou um profissional respeitado por colegas e amigos."
A família acompanhava de perto o relacionamento e a gravidez. "Eles estavam radiantes com a notícia. Sempre soubemos que tudo estava sendo feito dentro da legalidade."
Lara procurou a embaixada brasileira, mas foi informada sobre os limites da atuação. "É duro perceber que estamos de mãos atadas. Meu irmão não é um número no sistema. Ele tem uma vida, uma história, uma família."
Por: José Carlos
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