
Na próxima semana, completa um ano de uma das propostas mais surreais da história recente do Brasil.
Em dezembro de 2023, um grupo de investidores chineses chocou o país ao oferecer impressionantes R$ 9 trilhões para transformar Mataraca, uma pequena cidade no litoral norte da Paraíba, em uma metrópole futurista.
O valor, equivalente a 1,5 vezes o PIB nacional, seria suficiente para quitar toda a dívida pública do Brasil que, assim como publicou o CPG nesta sexta-feira (29), atingiu a marca de exatamente R$ 9 trilhões.
Entretanto, o que parecia ser uma oportunidade de ouro para o desenvolvimento local logo se revelou um dos episódios mais intrigantes e controversos já vistos no país.
Com pouco mais de 8 mil habitantes, Mataraca é uma pacata cidade no litoral paraibano, conhecida por suas belezas naturais, como a Praia de Barra de Camaratuba, e suas reservas ambientais.
Até o final de 2023, era improvável que a cidade entrasse no radar de investidores internacionais, ainda mais com uma proposta tão absurda em escala.
No entanto, o grupo Brasil CRT, que se apresentou como intermediário de um consórcio chinês, escolheu Mataraca como a base de um megaprojeto que prometia transformar o município em um modelo global de inovação e tecnologia.
O plano, anunciado em grande estilo, previa a construção de uma “cidade inteligente” que seria um marco no continente sul-americano.
Entre as promessas, destacavam-se:
Arranha-céus ecológicos de última geração, projetados para aproveitar energia solar e eólica.
Transporte público automatizado, totalmente movido a energia limpa.
A criação de um porto offshore ultramoderno, com capacidade para rivalizar com os maiores portos do mundo.
Centros de pesquisa de inteligência artificial e robótica, atraindo as maiores mentes do planeta.
Para os moradores e autoridades locais, a proposta soava como um sonho distante.
Mas com a cifra de R$ 9 trilhões sendo amplamente divulgada, a expectativa rapidamente cresceu.
O prefeito de Mataraca, Egberto Madrugada, foi um dos primeiros a expressar entusiasmo com o projeto, afirmando em entrevistas que a cidade estava pronta para “dar um salto no futuro”.
Políticos locais e estaduais também comemoraram o anúncio, vendo na proposta uma oportunidade de colocar a Paraíba no centro das atenções globais.
No entanto, não demorou muito para que surgissem dúvidas sobre a viabilidade do projeto.
Pouco após o anúncio, investigações começaram a ser realizadas pelo Ministério Público da Paraíba, lideradas pela promotora Ellen Veras Ximenes.
Diversos aspectos do projeto começaram a levantar suspeitas:
A origem do dinheiro: não havia comprovação de que o grupo Brasil CRT ou os investidores chineses possuíam os R$ 9 trilhões necessários.
Documentação irregular: partes do plano urbanístico eram cópias de projetos utilizados em cidades da China e até mesmo da Europa.
Credibilidade da Brasil CRT: a empresa intermediária não possuía histórico reconhecido e sequer estava devidamente registrada no Brasil ou na China.
Falta de detalhes técnicos: não havia qualquer estudo de impacto ambiental ou econômico que sustentasse a grandiosidade do projeto.

A implosão do projeto e a frustração em Mataraca
Com o avanço das investigações, ficou claro que o megaprojeto era insustentável.
O consulado da China no Brasil declarou que não havia nenhuma relação oficial do governo ou de empresas reconhecidas com o grupo Brasil CRT.
Ao longo das semanas seguintes, o projeto foi oficialmente descartado, deixando a população de Mataraca frustrada e a prefeitura em silêncio.
A escolha de Mataraca levantou muitas questões.
Especialistas sugerem que sua localização estratégica, próxima ao litoral e com áreas amplas para construção, pode ter sido um atrativo para os supostos investidores.
Além disso, sendo um município pequeno e com baixa exposição midiática, a cidade poderia ter sido vista como um alvo fácil para promessas mirabolantes.
O impacto nacional e as lições do caso
O episódio do suposto investimento da China em Mataraca é um lembrete de que propostas grandiosas devem ser analisadas com rigor e transparência.
Embora o Brasil necessite de investimentos estrangeiros para seu desenvolvimento, é essencial garantir que esses projetos tenham fundamentos sólidos.
Histórias de promessas de investimentos irreais como este da China não são exclusividade de Mataraca.
Outros exemplos incluem projetos como a usina de Belo Monte, que enfrentou anos de polêmicas, e megainvestimentos em portos no Nordeste que nunca saíram do papel.
Esses casos reforçam a importância de verificar a credibilidade dos proponentes e a viabilidade econômica de qualquer proposta.
Entre o sonho e a realidade
Embora Mataraca tenha sido palco de um dos episódios mais surreais da história recente do Brasil, a cidade continua com seu charme natural e sua resiliência.
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