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ESTILO DE VIDA LEVA JOVENS DE ATÉ 30 ANOS APRESENTAREM RISCO CARDÍACO

ATAQUE CARDÍACO EM JOVENS MÁ ALIMENTAÇÃO, SEDENTARISMO

21/12/2025 às 15h09
Por: Redação Fonte: Agência Brasil
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ESTILO DE VIDA LEVA JOVENS DE ATÉ 30 ANOS APRESENTAREM RISCO CARDÍACO

Estilo de vida leva jovens de até 30 anos apresentarem risco cardíacoHomens jovens entre 20 e 30 anos já estão apresentando fatores de risco cardiovascular que eram comuns apenas em homens mais velhos, a partir de 40 anos. Estudos do National Health and Nutrition Examination Survey mostram que, entre adultos de 18 a 39 anos, 7,3% já apresentam hipertensão e 8,8% têm colesterol alto. Os dados revelam ainda que 26,9% possuem pressão arterial em níveis elevados e 21,6% têm colesterol considerado limítrofe, muitas vezes sem diagnóstico.

O cardiologista Aloisio Barbosa da Silva confirmou que quase um em quatro jovens já apresenta algum sinal de alteração de pressão ou colesterol antes dos 40 anos. Alertou que tudo isso está relacionado aos maus hábitos que levam à disfunção metabólica do organismo. A professora de cardiologia na Escola de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Sarah Fagundes Grobe, membro do Comitê de Comunicação da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), confirmou que há um avanço de risco cardiovascular entre jovens de 20 a 30 anos e de ambos os sexos.

Foto: Emmanuel Denizard

"A gente sempre ouviu falar que infarto, hipertensão, arritmia eram considerados problemas de gente mais velha. Mas isso não é mais a nossa realidade, tanto no Brasil, como no resto do mundo,” explicou.

A cardiologista explicou que as mulheres têm alguns fatores de risco clássicos do gênero, que impõem risco cardiovascular maior e mais precoce, como doenças da gestão, entre as quais eclâmpsia, pré-eclâmpsia, diabetes gestacional. Isso aumenta o risco cardiovascular da mulher, além de menopausa precoce e doenças autoimunes. “Isso, de fato, muda a idade do aparecimento dos primeiros problemas cardíacos”, observou.

Estilo de vida

Nos homens, Sarah disse que, de forma geral, tem pacientes mais sedentários, indivíduos que estão expostos a uma alimentação mais ultraprocessada, jornada extensa de trabalho, uso de estimulantes para treinar ou para se manter acordado, abuso de álcool, privação do sono e abuso de esteroides.

“Estudo recente mostra a incidência de doenças cardiovasculares em pacientes que usam anabolizantes, principalmente. É uma relação bastante robusta e consistente e um risco meio silencioso que, às vezes, dá uma falsa impressão de segurança que tem um médico acompanhando. Mas, na verdade, esse paciente está sozinho”. Todos esses elementos criam um cenário para um coração que envelhece mais rápido do que a idade cronológica. “É como se nós antecipássemos o aparecimento da doença cardiovascular”, indicou a médica.

A base de tudo é o estilo de vida, agregou o cardiologista Aloisio Barbosa da Silva. Segundo ele, os jovens estão se tornando cada vez mais sedentários, com uma alimentação desbalanceada, Estão tendo vícios cada vez mais precoces e com horários desregrados. “Você vê hoje, cada vez mais, uma dependência de tela e menos atividade real”.

A dra. Sarah completou:

“A gente sabe que o mundo todo hoje está com sobrecarga de trabalho, ansiedade, estímulos o tempo todo e os homens mais jovens buscam, de forma incansável, a felicidade e o bom rendimento. Para isso, usam remédios para acordar, para dormir, para manter foco, enquanto deveriam prezar por um estilo de vida saudável, dormindo de forma adequada, praticando exercícios físicos pelo menos 150 minutos por semana de uma atividade moderada a alta, cuidando da espiritualidade, da alimentação mais balanceada, manutenção do peso. Assim, nós conseguiríamos evitar ou postergar muito o aparecimento dessas doenças”.

Prevenção

Dr. Aloisio Barbosa da Silva indicou que a ida ao médico, seja um clínico geral ou cardiologista, é fundamental para já iniciar um checkup pelo menos a partir dos 20 anos de idade.

“Porque cada vez mais a gente está vendo obesos iniciando já na fase de adolescência quando era mais na fase adulta”. Destacou que, no passado, só se considerava o risco de morte por infarto acima dos 35 anos quando o homem era mais sugestivo para doenças coronarianas; hoje se tem visto isso acontecer abaixo dos 30 e 25 anos. “É cada vez mais precoce o desenvolvimento de doença aterosclerótica coronariana”. Para o doutor, a prevenção é a principal estratégia. “É você pegar mais comida natural, mais verduras, folhas; praticar atividade física regularmente; não fumar; evitar bebidas alcoólicas em excesso; ter uma boa noite de sono; e controlar o peso”. Dessa forma, diminui a possibilidade de se ter riscos cardiovasculares.

Sarah Grobe afirmou que o homem, de modo geral, não está acostumado a ir ao médico para fazer prevenção, ao contrário do que ocorre com as mulheres. A avaliação clínica é fundamental para prevenir e detectar precocemente as doenças.

“Uma boa avaliação da pressão arterial, dos exames laboratoriais do colesterol”. Há ainda a LPA, ou Lipoproteína, que é um marcador genético de risco para doenças cardíacas, que exige um exame de sangue específico para ser medido. Esse exame de sangue avalia o colesterol de origem genética. “Todas essas são maneiras de a gente tentar se antecipar, prever um risco cardíaco ao longo da vida e instituir de forma mais efetiva um show de vida que vai proteger o paciente. Eu acho também que fazer acompanhamento para diagnóstico precoce das doenças, com certeza, muda o desfecho cardiovascular”.

Sarah concordou que a mulher está muito acostumada a ir ao médico porque, desde cedo, aprendeu a ir ao ginecologista para prevenir câncer de mama, enquanto o homem não costuma ir ao médico para fazer prevenção. Ele vai ao médico depois de uma certa idade, para ver a próstata, aos 60, 70 anos. Mas antes disso, se ele não tem sintoma, não procura o médico, porque talvez veja isso como um sinal de fraqueza, de vulnerabilidade, de medo até. Na verdade, a médica garantiu que a melhor coisa “é você ir ao seu médico, fazer sua rotina e saber que está tudo bem”.

Pesquisas

Um estudo realizado na Espanha registrou que cerca de 18% dos jovens adultos apresentaram pré-diabetes, hipertensão ou dislipidemia, enquanto quase metade estava acima do peso ou era fisicamente inativa. O cardiologista Aloisio Barbosa da Silva reforçou que energéticos, pré-treinos, drogas estimulantes e cigarros eletrônicos contribuem para inflamação vascular, aumento da pressão e risco de arritmias.

Cinco condições são responsáveis por cerca de 50% da carga global de doenças cardiovasculares, de acordo com estudo divulgado na The New England Journal of Medicine: tabagismo, colesterol alto, hipertensão, diabetes e obesidade. Todas evitáveis. Somados a esses fatores, novos comportamentos nocivos estão fragilizando o coração e o cérebro dos adultos jovens.

Nessa lista entram, agora, o consumo de alimentos ultraprocessados, o sono de má qualidade, o abuso de álcool e de bebidas energéticas, uso de testosterona e outros anabolizantes com fins estéticos, de cigarros e outros dispositivos eletrônicos para fumar, a compulsão por redes digitais e a prática, sem preparo e orientação, de esportes de alto rendimento.

A combinação de hábitos de vida pouco saudáveis tem levado a um aumento significativo de infartos em adultos jovens nos últimos anos no Brasil e no mundo. Para ter uma ideia, uma matéria do jornal Estadão, com base em dados do Ministério da Saúde, mostrou que as internações por infarto de pessoas abaixo de 40 anos passaram de 1,7 caso por 100 mil habitantes no ano 2000 para quase cinco em 2022. Na faixa de 35 a 39 anos saltou de nove para 17 casos por 100 mil habitantes, no mesmo período.

Esses números alarmantes tendem a crescer com a adoção de novos comportamentos prejudiciais. Um deles é o maior consumo de alimentos ultraprocessados pelos brasileiros, que teve aumento médio de 5,5% nos últimos dez anos (até 2023), segundo pesquisa divulgada na Revista de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP). Um dado preocupante. Um estudo da Escola de Saúde Pública TH Chan de Harvard (EUA), publicado na revista The Lancet Regional Health-Americas, constatou a relação direta entre o uso desses produtos e o maior risco de doenças cardiovasculares.

Sono fragmentado pode causar infarto e acidente vascular cerebral

Outra causa, nos dias de hoje, de problemas cardiovasculares em adultos jovens é o sono de má qualidade ou fragmentado, principalmente em decorrência da apneia obstrutiva do sono (interrupções, várias vezes, por segundos da respiração ou ela se torna superficial enquanto a pessoa dorme). Pelo menos 50% dos indivíduos com diagnóstico desse distúrbio sofrem de hipertensão (muitos deles sem diagnóstico), uma grave causa de infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral e danos aos rins. Igualmente, a poluição luminosa, intensificada pelo uso crônico de dispositivos com telas, impede o sono restaurador.

Se já não bastasse dormir mal, um número significativo de adultos com menos de 40 anos abusa de álcool e bebidas energéticas; estas são ricas em estimulantes, como cafeína e taurina, com o objetivo de intensificar o estado de alerta e ganhar disposição temporária. Elevação da frequência cardíaca e da pressão arterial, sem falar no maior risco de arritmias, são apenas alguns dos efeitos adversos dessas bebidas.

“Também tem se tornado rotina o uso por adultos jovens de testosterona e outros anabolizantes com fins estéticos, visando ao ganho de massa magra e de força muscular. Um comportamento altamente arriscado, que pode causar efeitos danosos no coração, como, por exemplo, aterosclerose (formação de placas nas artérias), e ainda aumentar o risco de alguns tipos de câncer, entre outras doenças”, enfatiza o dr. Gilberto Ururahy, diretor médico da Med-Rio e cofundador da clínica com o dr. Galileu Assis, lembrando que mesmo quem possui indicação médica para o uso desse hormônio precisa de um controle estrito.

Cigarros eletrônicos são potentes inimigos do coração

E, apesar da bem conhecida causa direta entre o uso de cigarros e outros dispositivos eletrônicos para fumar (vapes e pods) e doenças pulmonares graves, a venda tem crescido no Brasil, mesmo eles sendo proibidos. 

São quase três milhões de usuários no país. O que talvez muitos deles não saibam é que o coração também sofre. “Indivíduos que usam habitualmente esses produtos apresentam uma probabilidade 1,79 vez maior de sofrer um infarto, em comparação com não fumantes”, alerta a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). É algo grave.

Ainda na lista de atuais perigos à saúde cardiovascular dos jovens, a poluição sonora é outra séria ameaça. A título de ilustração, fones de ouvido podem alcançar um nível sonoro de até 110 decibéis (dB) ou mais. E ruídos acima de 70 dB já elevam o estresse e a pressão arterial. Para ter uma noção, uma conversa normal fica entre 50 e 60 dB. 

A compulsão por redes digitais é outro transtorno relevante que leva ao sedentarismo e pode aumentar a ansiedade, afetando negativamente o coração. Os brasileiros passam, em média, 9 horas e 13 minutos por dia na internet (atrás apenas dos sul-africanos), sendo mais de três horas desse tempo apenas em mídias digitais, conforme o Relatório Digital 2024.

Há além do mais um outro aspecto comportamental entre as novas ameaças ao coração. O interesse pela prática de atividade física hoje é maior e isso é uma boa notícia, porque é um hábito que traz benefícios à saúde. Por outro lado, é preciso evitar o exercício excessivo, especialmente nos casos de pessoas sedentárias. Não dá para começar a praticar, por exemplo, uma maratona ou qualquer outra modalidade de alto rendimento de uma hora para outra sem passar por um check-up médico completo e sem a orientação de um(a) profissional de educação física e nutricionista.

No Brasil, são mais de 1.100 óbitos por dia por doenças cardiovasculares

Todos os anos, 17,1 milhões de pessoas no mundo morrem de doenças cardiovasculares e, conforme a Organização Mundial da Saúde, 80% desses casos poderiam ter sido evitados com um estilo de vida saudável e a eliminação ou controle dos fatores de risco, a maioria deles modificáveis, aponta um artigo publicado pela Fundação Espanhola do Coração.

No Brasil, são mais de 1.100 óbitos por dia por doenças cardiovasculares, 46 por hora, uma morte a cada 1,5 minuto, com base no indicador Cardiômetro da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Os números representam o dobro de óbitos por todos os tipos de câncer, e 2,3 vezes mais que acidentes e violência.

Portanto, prevenir e gerenciar, através da realização periódica do check-up médico, os novos fatores de risco à saúde dos adultos jovens é imprescindível na diminuição da incidência de condições cardiovasculares em nível global. E uma medida essencial na busca da longevidade com bem-estar.

 

Por:José Carlos

Fonte:Agência Brasil

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