Entre janeiro e abril de 2026, 268 pedidos de recuperação judicial envolveram 602 empresas, conforme dados compilados pela Serasa Experian. Em 2025, foram 977 processos, o maior número da série histórica.
Para Ana Paula Tozzi, CEO da consultoria de varejo AGR, a conjuntura afeta todo o setor, mas fragilidades administrativas e operacionais tornam algumas empresas mais vulneráveis. “A margem de lucro no varejo é muito apertada. É preciso ter eficiência operacional e comercial para seguir em frente”, afirmou ao jornal O Globo.
A especialista avaliou que negócios com conflitos ou problemas internos não sustentam a operação com a taxa de juros atual. “Se a empresa tem algum conflito ou fragilidade interna que compete com essa eficiência, ela só fica de pé com a taxa de juros a 5% ao ano, mas não no patamar atual”, disse.
Crédito caro afeta estoque, fornecedores e investimentos
A Selic saiu de 2% ao ano em agosto de 2020 e chegou a 15% em junho de 2025. O Banco Central iniciou a redução da taxa em março deste ano, mas os cortes somaram um ponto percentual até agora, mantendo os juros em 14% ao ano.
O período prolongado de juros elevados aumentou o custo das dívidas contratadas pelas empresas e encareceu novas linhas de financiamento. Com menos caixa e capital de giro, redes varejistas reduzem investimentos, fecham lojas e cortam postos de trabalho.
O problema pesa especialmente em atividades que precisam financiar estoques e manter pagamentos a fornecedores para preservar as vendas. Móveis, eletroeletrônicos e eletrodomésticos enfrentam exposição maior porque dependem de compras de valor mais alto e, muitas vezes, parceladas.
Do lado do consumidor, 82% das famílias tinham algum tipo de dívida em julho, segundo a Confederação Nacional do Comércio. Um quinto delas comprometia mais da metade do orçamento com débitos.
O Grupo Casas Bahia protocolou pedido de recuperação judicial na Justiça de São Paulo. A medida foi tomada após uma sequência de prejuízos, fechamento de lojas e redução do quadro de funcionários.
O pedido foi apresentado na noite de domingo (16), na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo. A companhia declarou passivos de R$ 17,3 bilhões.
A decisão representa uma nova etapa da crise financeira da varejista. Além disso, acontece cerca de dois anos depois de uma recuperação extrajudicial.
Dívida da Casas Bahia chega a R$ 17,3 bilhões
Segundo o pedido apresentado à Justiça, a maior parte das dívidas está concentrada em credores sem garantia.
Do total, R$ 16,4 bilhões correspondem a credores quirografários. Outros R$ 754 milhões são dívidas trabalhistas. Além disso, há R$ 154 milhões relacionados a microempresas e empresas de pequeno porte.
O processo envolve dez empresas do grupo. Entre elas estão as operações relacionadas às marcas Casas Bahia e Ponto Frio, além da Extra.com, Bartira e empresas de logística e tecnologia.
A recuperação judicial busca permitir a reorganização das dívidas. Ao mesmo tempo, a empresa pretende preservar suas operações e manter os canais de atendimento aos consumidores.
Prejuízo de R$ 10,1 bilhões agravou a crise
O pedido acontece após a divulgação do balanço do segundo trimestre de 2026.
A Casas Bahia registrou prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões entre abril e junho. No mesmo período de 2025, a perda havia sido de R$ 555 milhões.
O resultado foi fortemente afetado por efeitos contábeis não recorrentes. Esses efeitos somaram aproximadamente R$ 9,1 bilhões, segundo os dados divulgados pela companhia.
A companhia ainda apresentou patrimônio líquido negativo de R$ 8,1 bilhões. Além disso, acumulou oito trimestres consecutivos de prejuízo.
298 lojas foram fechadas
A recuperação judicial ocorre depois de uma forte redução da estrutura física.
A companhia fechou 298 lojas, número equivalente a aproximadamente 29% das 1.034 unidades existentes ao final de junho.
O fechamento atingiu diferentes regiões do país. Nos últimos dias, consumidores e funcionários divulgaram imagens de lojas fechadas nas redes sociais.
O movimento também provocou reação de entidades sindicais. O Sindicato dos Empregados no Comércio de Osasco e Região anunciou uma ação coletiva contra a companhia.
Demissões atingem milhares de funcionários
Além do fechamento das lojas, a Casas Bahia iniciou uma nova rodada de cortes.
Segundo informações divulgadas pela empresa no pedido judicial, aproximadamente 3 mil funcionários foram demitidos. O grupo possui cerca de 30.117 colaboradores.
A empresa afirmou que está ajustando o quadro de funcionários ao novo tamanho da operação. Além disso, contratos, despesas e investimentos estão sendo revisados.
Por que a Casas Bahia entrou em recuperação judicial?
A empresa atribui a deterioração financeira a diferentes fatores.
Entre eles estão os juros elevados, restrição de crédito, aumento dos custos financeiros e pressão sobre o consumo. Além disso, a companhia enfrentou dificuldades para obter novas fontes de liquidez.
A empresa também aponta investimentos realizados desde 2019 em tecnologia, logística e digitalização. Entretanto, a alta dos juros alterou significativamente as condições financeiras do negócio.
O modelo de negócios também depende de capital de giro e financiamento. Portanto, o aumento do custo do dinheiro pressionou ainda mais a estrutura financeira.
Captação internacional não foi concluída
Outro fator importante foi a tentativa frustrada de levantar recursos no mercado internacional.
Segundo a companhia, foram realizadas conversas com investidores brasileiros, americanos e europeus. Porém, o principal investidor interessado desistiu da operação.
Com isso, a alternativa de liquidez não foi concretizada. Dessa forma, a recuperação judicial passou a ser uma alternativa para reorganizar os passivos.
Casas Bahia já havia feito recuperação extrajudicial
Essa não é a primeira vez que a companhia utiliza mecanismos de reestruturação de dívidas.
Em 2024, a Casas Bahia realizou uma recuperação extrajudicial envolvendo aproximadamente R$ 4,1 bilhões em dívidas. O plano foi homologado pela Justiça naquele ano.
Agora, entretanto, a empresa recorre à recuperação judicial diante de uma situação financeira mais complexa.
A principal diferença é que o processo judicial envolve a supervisão da Justiça e um plano que será submetido aos credores.
Casas Bahia pede medidas urgentes
Na petição, a companhia também solicitou medidas para preservar o funcionamento das operações.
Entre os pedidos está a suspensão de execuções por 180 dias. A empresa também quer impedir vencimentos antecipados de contratos e preservar o fluxo de recebíveis.
A Casas Bahia afirma que existe risco de vencimento antecipado de mais de R$ 10 bilhões em contratos financeiros e comerciais.
Segundo a companhia, uma retenção de recebíveis poderia comprometer parcela relevante do caixa. Por isso, as medidas de proteção são consideradas fundamentais para a continuidade das operações.
Por: José Carlos
