
MANAUS – Os estudantes brasileiros que realizam pesquisas em parceria com a universidade norte- americana Harvard estão “apreensivos” quanto à continuidade e conclusão dos estudos, relata Silvana Nascimento, pesquisadora da UEA (Universidade Estadual do Amazonas) que faz doutorado em Clima e Ambiente nos Estados Unidos. Ela conversou com o ATUAL pelo WhatsApp.
“Simplesmente do nada todo mundo recebeu a notícia de que estaria proibido Harvard matricular alunos estrangeiros. Inclusive os que já estão matriculados deveriam se transferir para outra universidade ou teria o seu visto revogado, como se ficássemos em uma condição de ilegal, e até correndo risco de deportação caso ocorresse mesmo isso. E aí, deixou todo mundo apreensivo”, diz a pesquisadora que está em Cambridge, no estado de Massachusetts, onde fica a sede da universidade.
Na quinta-feira passada (22), Kristi Noem, secretária de Segurança nNacional dos Estados Unidos, revogou a autoridade da Universidade Harvard para matricular estrangeiros. A decisão gerou medo entre os milhares de estudantes da instituição.
Segundo Silvana, o tempo de visto do passaporte está diretamente relacionado com o período de cada etapa da pesquisa nos laboratórios de Harvard. “O meu visto não é de turista, é um visto temporário. Para eu tirar esse visto, eu preciso de uma carta-convite da universidade dizendo o que eu venho fazer aqui e tem uma data de começo e final para estar aqui”, diz.
“A gente recebeu alguns e-mails da administração da universidade dizendo que era para gente não se preocupar, tranquilizando, dizendo que eles iam verificar o que poderia ser feito, que não era pra gente ficar desesperado e que qualquer informação era pra acompanhar no site, ou eles iam entrar em contato. Mas você sabe como é estudante, né? Está ali fazendo o seu projeto, tranquilo, do nada vem uma informação dessa e fica aquela coisa: ‘meu Deus, e agora? Eu vou terminar meu projeto? Será que eu vou ter que ir pra casa antes da hora?’”, indagou Silvana.
Segundo a pesquisadora, os brasileiros têm um grupo de WhatsApp onde compartilham informações sobre o que está acontecendo e como podem ser afetados. Há relatos no grupo de que alguns estudantes brasileiros matriculados, ainda no Brasil, estavam em dúvida se iam embarcar para os EUA.
“Aconteceu tudo muito rápido. Não sabíamos se a medida do governo norte-americano ia afetar somente os estudantes universitários matriculados ou se ia afetar também os pesquisadores estrangeiros. Eu trabalho no Departamento de Engenharia e Ciência Aplicada e sou a única brasileira, mas Harvard tem vários departamentos”, diz.
Na sexta-feira (23), a administração de Harvard apresentou uma ação contra a medida e a juíza Allison Burroughs, do tribunal federal de Massachusetts, proibiu a administração de Trump de implementar a anulação da certificação SEVIS (Programa de Estudantes e Visitantes de Intercâmbio). A medida do governo está suspensa até uma audiência judicial preliminar, na quinta-feira (29).
Caso a medida do governo norte-americano entre em vigor, a pesquisa de Silvana sobre o nível de mercúrio nos rios da Amazônia será paralisada. “A nossa pesquisa é muito importante para a saúde, para o estudo dos peixes nos rios, para a alimentação das pessoas. É uma cadeia de alimentos. Então, abandonar toda a pesquisa de monitoramento é uma perda para a sociedade e uma frustração para mim. Não significa somente marcar e desmarcar passagens para voltar para Manaus”, diz Silvana.
Os estudos da pesquisadora têm a duração de quatro anos em Harvard e para cada etapa ela precisará do visto temporário do governo norte-americano. “Eu tenho outras campanhas para fazer, o monitoramento dos rios é algo constante. É um doutorado, são quatro anos e esse é o início da minha pesquisa. Então, se isso [medida] entrasse em vigor, eu praticamente não teria mais a minha pesquisa. Eu tenho que voltar em outras ocasiões para cá, para fazer novas análises. A Universidade de Harvard é nossa parceira nos estudos”, afirma.
A medida do governo de Donald Trump afeta tanto os novos quanto os atuais alunos internacionais, que terão de ser transferidos para outras instituições nos Estados Unidos.
A proibição veio após o cancelamento da certificação que permite à universidade aceitar estudantes com os vistos F e J, utilizados por estrangeiros em intercâmbio educacional. Sem essa autorização, Harvard perde o direito de receber alunos de fora dos EUA.
A decisão é uma retaliação ao que o governo classificou como “conduta pró-terrorista” da universidade. Em resposta, Harvard chamou a medida de ilegal e reafirmou seu compromisso com a diversidade acadêmica.
A secretária de Segurança Interna, Kristin Noem, acusou a instituição de incentivar violência, antissemitismo e de ter vínculos com o Partido Comunista Chinês. Harvard nega as acusações e afirma que continuará lutando judicialmente contra o governo federal.
Desde que Trump reassumiu a presidência, Harvard se recusou a implementar mudanças exigidas pelo governo, como alterações em sua política de admissão e cortes em programas de igualdade. Como resposta, Washington congelou mais de US$ 2,2 bilhões em verbas destinadas à universidade.
A disputa entre Trump e Harvard representa um dos episódios mais tensos entre o governo e o setor acadêmico nos EUA.
A universidade, uma das mais tradicionais do mundo, abriga estudantes de mais de 140 países e depende de recursos federais para manter parte de suas atividades, especialmente em pesquisa científica e médica.
Com a matéria: Amazonas Atual
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