
Crédito,Cristália
Legenda da foto,A polilaminina é uma versão modificada da laminina, proteína produzida pelo corpo humano
A polilaminina se tornou um dos assuntos mais comentados nas redes sociais nos últimos dias. Vídeos de pacientes com lesão medular voltando a se movimentar (e até praticando musculação) impulsionaram trends no Instagram e no TikTok. No centro da discussão está a pesquisadora Tatiana Sampaio, que lidera os estudos sobre a substância.
Apesar da repercussão, a própria cientista reforça que ainda não se trata de um tratamento comprovado. A polilaminina é vista hoje como uma promessa científica, e não como uma revolução consolidada.
A polilaminina é um composto recriado em laboratório a partir da laminina, proteína naturalmente produzida pelo corpo humano, especialmente durante o desenvolvimento embrionário. Ela exerce papel fundamental na organização dos tecidos e no crescimento celular.
A proposta da pesquisa é utilizar essa versão modificada para tratar lesões medulares agudas, aquelas que acontecem logo após um trauma e interrompem a comunicação entre o cérebro e o corpo.
Quando ocorre uma lesão na medula espinhal, os axônios (“fios” dos neurônios) se rompem. O organismo forma uma cicatriz na região, dificultando a reconexão dessas células.
A polilaminina é aplicada diretamente na área lesionada durante a cirurgia. Ela forma uma estrutura de suporte que pode funcionar como uma “ponte microscópica”, ajudando no crescimento dos prolongamentos dos neurônios e na possível retomada parcial dos movimentos.
Os resultados observados até agora em laboratório, em animais e em um pequeno grupo de pacientes indicam que esse mecanismo pode favorecer algum grau de recuperação motora em lesões agudas.
Em 2025, a equipe de Tatiana Sampaio divulgou um estudo preliminar com oito pacientes com lesão medular aguda. Alguns tiveram evolução moderada, enquanto outros apresentaram recuperação significativa dos movimentos.
No entanto, há pontos importantes:
O nome de Bruno Drummond ganhou destaque após ele divulgar sua recuperação. Ele sofreu uma lesão medular aguda em 2018, aplicou polilaminina e atualmente pratica musculação.
Especialistas, porém, lembram que até 30% dos pacientes com lesão medular aguda podem recuperar algum grau de movimento mesmo sem o uso da substância, dependendo da gravidade da lesão e da resposta individual.
Isso significa que ainda não é possível afirmar que a recuperação esteja diretamente ligada à polilaminina.
Não.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o início da fase 1 dos ensaios clínicos regulatórios, voltada à segurança em pequeno grupo de pacientes. No entanto, o estudo ainda está na comissão de ética e não começou.
Para que a polilaminina se torne medicamento, será necessário:
Somente após todas essas etapas a substância poderá chegar aos hospitais e ao Sistema Único de Saúde (SUS).
Após a repercussão, pacientes e familiares acionaram a Justiça para ter acesso à substância por meio do chamado uso compassivo, mecanismo permitido no Brasil em situações específicas.
Segundo o laboratório Cristália:
Não há qualquer evidência científica de eficácia para lesões medulares crônicas neste momento.
Segundo Rogério Almeida, em entrevista ao g1, a empresa está no início de estudos para avaliar essa possibilidade. Ele explicou que, após a fase aguda, forma-se uma cicatriz que impede a ação da substância, e que a equipe está analisando formas de remover essa barreira antes de testar a aplicação.
A polilaminina representa um avanço promissor da ciência brasileira e reacendeu o debate sobre inovação nacional. No entanto, os próprios pesquisadores e especialistas reforçam: ainda é cedo para afirmar que se trata de uma revolução no tratamento da lesão medular.
O caminho regulatório está apenas começando, e a ciência exige tempo, método e cautela.
Um encontro emocionante. A ex-ginasta Lais Souza conheceu pessoalmente o Bruno Drummond de Freitas, o primeiro paciente tetraplégico que voltou a andar após receber o tratamento com a polilaminina, que é brasileiro, experimental, está na fase 1 de testes pela Anvisa e já ajudou várias pessoas a recuperarem os movimentos.
A ex-atleta, que também ficou tetraplégica, em 2014, quando esquiava nos Estados Unidos, bateu um longo papo com o Bruno e imagens do vídeo mostram o momento em que ele empurra a cadeira de rodas da Laís. É emocionante de assistir.
“Hoje conheci o paciente 01 da Polilaminina, Bruno Drummond de Freitas, protagonista de um marco histórico na ciência brasileira sobre lesões medulares”, contou Laís na legenda do vídeo que postou nas redes.
A vitória do Bruno
Laís explicou o que aconteceu com o Bruno:
“Em abril de 2018, Bruno sofreu um grave acidente de carro que resultou em fraturas na coluna vertebral, nas alturas de C6 e T8. Na região de C6, a lesão medular foi classificada como completa, estabelecendo o diagnóstico de tetraplegia”, e continuou:
“Menos de 24 horas após o trauma, ele foi submetido ao procedimento cirúrgico e recebeu a aplicação da polilaminina, tornando-se o primeiro ser humano do mundo a receber essa substância em uma lesão medular aguda”.
O primeiro movimento dele
Laís comemora que, menos de 1 mês depois, o Bruno teve os primeiros sinais da recuperação
“Três semanas depois, ocorreu o primeiro movimento voluntário: flexão do dedão do pé. O primeiro indicativo clínico de reconexão funcional. A partir daí, seguiram-se dois anos de evolução progressiva, associados a reabilitação intensiva e diária”, disse Lais, que comemorou logo em seguida:
“Hoje, Bruno se encontra no que define como seu ápice de recuperação funcional, tornando-se 100% independente, com apenas algumas sequelas residuais”.
Brasil no centro do debate internacional
E Laís Souza, que conhece muito sobre tetraplegia – porque há 12 anos se submete a cirurgias, tratamentos e fisioterapia – falou sobre essa descoberta revolucionária brasileira feita pela dra. Tatiana Sampaio, a bióloga da UFRJ criadora da polilaminina, a proteína retirada da placenta que vem devolvendo movimentos a pessoas que ficaram tetraplégicas.
“O caso de Bruno, e de outros pacientes da polilaminina, posiciona a ciência brasileira no centro do debate internacional sobre regeneração medular. Bruno, foi um prazer te conhecer!”, concluiu a ex-ginasta brasileira.
E ele respondeu nas redes com um pedido lindo: “O prazer foi todo meu Lais!!! Você é uma das mulheres mais incríveis que já tive a oportunidade de conhecer…. Por mim a gente ficava o dia todo conversando. Estou rezando para que vc tenha uma oportunidade de recuperação e vamos marcar mais encontros!!!
Alertas da Laís
E Laís deixou dois avisos importantes nesse mesmo post:
“TATIANA SAMPAIO NÃO POSSUI NENHUMA REDE SOCIAL!!”, foi o primeiro. O segundo foi:
“Atenção: muitas pessoas estão se aproveitando para aplicar golpes. A polilaminina não está sendo comercializada. Busquem sempre os canais oficiais, o SAC do laboratório Cristália e a equipe responsável pela pesquisa”, concluiu.
PACIENTE QUE RECEBEU POLILAMININA POR ORDEM JUDICIAL RELATA A EMOÇÃO AO MEXER O PÉ E A PERNA
"Acordei de madrugada com o pensamento de que conseguiria mexer meu pé. Minha esposa dormia ao lado da minha maca, aqui no hospital. Pensei, vou mandar um estímulo para baixo, vou mexer meu pé. E não foi um movimentinho, não. Eu mexi o meu pé direito por inteiro. Eu fiz a contração." O relato é de Diogo Barros Brollo, 35, que sofreu lesão medular total, de acordo com a equipe médica que o atendeu, após uma queda de um prédio durante o trabalho, em Friburgo (RJ). Ele ficou paraplégico, sem movimentos e sensibilidade da cintura para baixo.
Há um mês, por ordem judicial, ele recebeu aplicação da polilaminina, substância ainda em fase de testes clínicos na ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), que pode ser capaz de regenerar lesões na medula espinhal, de acordo com um grupo de pesquisadores da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), liderado pela bióloga Tatiana Coelho de Sampaio.

Duas semanas após a aplicação, ele começou a retomar sensibilidades em partes das pernas e a conseguir mexer o pé, contrair a coxa e também a musculatura do esfincter. A constatação é narrada por ele mesmo e foi documentada pela equipe científica da bióloga Tatiana. "Não se trata de impulso involuntário. Eu mexo o meu pé quando quero. Consigo segurar minha perna dobrada, o que era impossível até dias atrás. Estou tendo contração muscular voluntária", afirma Diogo. Durante a pesquisa científica, com autorização da Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa), a polilaminina foi injetada em animais e em seis voluntários. Um deles, Bruno Drummond de Freitas, 31, diagnosticado com tetraplegia, voltou a andar.
São raros os casos de pessoas com lesões medulares completas que conseguiram retomar mobilidade e sensação tátil. Médicos fisiatras afirmam que, em alguns casos, após o chamado trauma medular, quando a região desincha, é possível haver alguma melhora, a depender do dano. Diogo, que é vidraceiro e pai de três meninas, diz estar muito grato. "Dou graças a Deus de ter tido acesso à aplicação. Tive uma grande chance, uma grande oportunidade. É muito bom ver que o estudo da doutora Tatiana está dando certo, está caminhando para ser liberado para outras pessoas."
De acordo com a equipe de fisioterapia do HECI (Hospital Evangélico de Cachoeiro do Itapemirim), onde está internado para reabilitação Luiz Fernando Mozer 37, que também recebeu a aplicação há pouco mais de duas semanas, também por ordem judicial, após ter uma lesão completa em um acidente de moto, a recuperação tem sido "significativa".
"Mesmo diante de um quadro complexo, o paciente apresenta evolução gradativa, com registro recente de contração voluntária em membro inferior, considerado um ganho funcional significativo para o estágio atual da recuperação", informa a equipe do hospital, por nota. Ainda segundo os especialistas, "a reabilitação segue com foco no controle de tronco, fortalecimento muscular, melhora da sensibilidade e progressão da independência funcional". "O caso representa uma experiência inovadora e desafiadora, que reforça o compromisso da instituição com a ciência, a reabilitação baseada em evidências e a crença no potencial de recuperação dos pacientes, destacando a importância do trabalho em equipe e da atuação precoce no cuidado às lesões medulares", diz o texto.
Uma mulher de 35 anos que teve lesão gravíssima após acidente de carro, que recebeu a substância por ordem judicial, em Governador Valadares (MG), também está registrando melhoras, segundo a família e pesquisadores da equipe de Tatiana. Ela tem sensações de toque nas pernas e consegue contrair a coxa.
Os testes oficiais da polilaminina, que verificam a segurança do fármaco, só poderão ser realizados com voluntários com lesões medulares completas e agudas —ocorridas em no máximo 72 horas, que têm maior chance de recuperação.
LIMINARES NA JUSTIÇA PARA A APLICAÇÃO JÁ SÃO DEZ Mais seis decisões judiciais mandam o laboratório Cristália, o grupo de pesquisadores da UFRJ e o poder público viabilizarem a aplicação da polilaminina em pessoas que tiveram lesões medulares após traumas. Até agora, ao todo, são dez, sendo cinco já cumpridas.
Quatro das liminares foram ou devem ainda ser cumpridas nesta semana. As cirurgias já ocorreram em Caraguatatuba (SP) e Vitória (ES), e devem acontecer em Maringá (PR) e em Salvador (BA) nos próximos dias.
O laboratório Cristália, apoiador financeiro da pesquisa e quem vai produzir o fármaco, caso ele seja futuramente aprovado pela Anvisa, informou que vai seguir cumprindo as ordens judiciais, que passam por aval da agência. Até agora, a empresa tem absorvido os custos das aplicações. A substância, caso se torne um medicamento aprovado, poderá ser fornecida pelo SUS (Sistema Único de Saúde), de acordo com conversas já abertas entre a Cristália e o Ministério da Saúde.
Por: José Carlos
Fonte:Cristália.com.br
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