Os valores são anualizados para o cenário de implementação integral e comparados às projeções das companhias para 2027. O banco também simula um cenário com metade do aumento de custos, mais próximo da primeira etapa da transição.
Impacto nos frigoríficos
A despesa adicional estimada para a MBRF equivale a 6,8% do Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) consolidado projetado para 2027.
Na JBS, o custo pode chegar a R$ 1 bilhão, ou 3,2% do Ebitda. A diferença, segundo o BTG, se explica em parte pela maior diversificação internacional da companhia. Na Minerva, o acréscimo estimado é de R$ 104 milhões, ou 2% do Ebitda.
O banco ressalta que o impacto sobre o lucro líquido também depende da situação financeira de cada empresa. No caso da Minerva, o endividamento pode ampliar o peso da despesa sobre o resultado final. O BTG aponta ainda que os frigoríficos podem ter dificuldade para contratar trabalhadores em número suficiente, o que poderia restringir a capacidade operacional.
Grãos
Produtores de grãos e empresas que prestam serviços ao agronegócio estão em posição relativamente mais confortável, segundo o banco. Em geral, essas atividades empregam menos pessoas em relação à receita e não dependem da mesma continuidade operacional das linhas industriais de processamento de carne.
O BTG estima custo adicional anual de R$ 71 milhões para a SLC Agrícola, R$ 28 milhões para a 3tentos e cerca de R$ 8 milhões para cada uma das empresas Boa Safra e BrasilAgro. O impacto varia de 1,6% a 2,8% do Ebitda projetado para 2027, conforme a companhia.
A exposição, porém, não é uniforme ao longo do calendário agrícola. O banco reconhece que plantio e colheita podem exigir reforço de mão de obra, ainda que o peso da folha de pagamento na receita seja relativamente baixo.
As prefeituras devem ser as mais afetadas financeiramente pela proposta que extingue a escala 6×1. A redução da jornada pode exigir novas contratações, elevar os gastos com pessoal e encarecer contratos terceirizados, com reflexos em serviços como transporte coletivo, coleta de lixo, hospitais e entregas dos Correios.
Dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), do Ministério do Trabalho, mostram que 4,4% dos trabalhadores municipais cumprem jornadas superiores a 40 horas semanais. O percentual é maior que o registrado nas administrações estaduais, de 1%, e federal, de 0,6%.
A Confederação Nacional de Municípios (CNM) estima que a mudança custará R$ 1,5 bilhão às prefeituras em despesas diretas e exigirá a contratação de 25,8 mil servidores efetivos e temporários. Em estudo divulgado em junho, a entidade também projetou déficit de pelo menos 96 mil professores, 58 mil trabalhadores de limpeza urbana e 22 mil técnicos de enfermagem.
O impacto pode aumentar com a necessidade de adaptar contratos terceirizados de limpeza, obras e vigilância. A PEC aprovada pelo Senado prevê prazo de até 12 meses para a adequação dos contratos mantidos pelo poder público.
Um levantamento da Finance Consultoria, encomendado pela Frente Nacional dos Prefeitos (FNP) e coordenado pelo economista José Roberto Afonso, calcula que os custos adicionais nos municípios podem alcançar R$ 34,5 bilhões. A estimativa considera R$ 5,4 bilhões em despesas com funcionários temporários, R$ 20,2 bilhões em terceirizações, R$ 3,6 bilhões em organizações sociais e R$ 5,3 bilhões em contratos de contas públicas.
O transporte coletivo também pode ficar mais caro. O presidente da FNP e prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo (MDB-RS), afirmou em junho, em entrevista ao jornal O Globo, que a alteração da jornada pode pressionar as tarifas, já que motoristas e cobradores também trabalham aos fins de semana e feriados.
“Esse sistema todo é terceirizado. Quando a passagem é calculada, o peso do serviço dos trabalhadores soma de 35% a 45%, com cobradores ou não. Se muda a escala de trabalho, empresários vão alegar que não têm como manter o preço”, declarou.
Nas empresas estatais federais, a mudança também pode exigir ajustes nas equipes. Segundo a RAIS, cerca de 209 mil vínculos com jornadas superiores a 40 horas semanais estão nessas companhias, o equivalente a 26,7% do total registrado na administração pública federal.
Os Correios também estão entre os pontos de atenção. A estatal enfrenta uma crise financeira e mantém carteiros com jornada de 220 horas mensais, equivalente a 44 horas semanais. O trabalho aos sábados, domingos e feriados prevê pagamento de adicional. Em janeiro de 2025, a empresa tinha 46 mil carteiros na folha de pagamento.
Por: José Carlos