Diante desse cenário, é crescente o interesse de chineses pelo português brasileiro, conta Alice Oliveira, cientista social que acabou se tornando professora de português para chineses depois de fazer parte, em 2023, da primeira turma de ensino de mandarim do então recém-aberto Instituto Confúcio em Salvador.

A organização promove a língua e a cultura chinesas e é vinculado ao governo da China. Já são 14 espalhados pelo país, um sintoma de um movimento que vai além das cifras de investimento e reflete uma tentativa de aproximação cultural com o Brasil.

Alice já estava concluindo o curso de Ciências Sociais — e infeliz com a perspectiva de passar parte da carreira na área de pesquisa — quando entrou no curso e se apaixonou pelo mandarim.

Já teve cinco alunos chineses, um deles vendedor de máquinas que trabalha com outro grande projeto chinês na Bahia, a ponte Salvador-Itaparica, que, quando concluída, deve se tornar a maior ponte sobre lâmina d'água da América Latina.

Até pouco tempo, ela conta, os chineses costumavam aprender português com sotaque de Portugal, em muito por conta da proximidade com Macau, uma pequena ilha ao sul da China que é ex-colônia portuguesa.

Era comum aprender o idioma para ir para Moçambique e Angola, que nas últimas décadas têm estreitado laços com a China.

"Agora, porém, com aproximação Brasil e China, o pessoal tá querendo aprender português brasileiro pra vir pra cá."

A ligação cada vez mais forte entre os dois países acabou virando objeto da rixa ideológica entre direita e esquerda no Brasil, especialmente com a consolidação da China como grande rival dos Estados Unidos e com a volta de Donald Trump à Casa Branca. A fake news dos 10 mil chineses invadindo Camaçari teve como origem essa disputa e foi replicada por diversos perfis em março deste ano.

Quem quer que vença o segundo turno, entretanto, terá de navegar esse cenário em que EUA e China, as duas maiores potências do mundo hoje — e os dois maiores parceiros comerciais do país — olham para um Brasil que pode ser estratégico, como mercado consumidor, fornecedor de alimentos e produtor de terras raras.

"O período de vinculação a uma superpotência ou a outra passou", opina Wendel Henrique Baumgartner, professor do departamento de Geografia da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

"Temos que tomar muito cuidado para que a gente não mude a dependência que tínhamos no período colonial da Europa, que depois foi substituída pelos Estados Unidos, para agora criar uma dependência com a China. Eu acho que a gente tem que ser muito estratégico e abrir as portas para o mundo", avalia o professor, emendando que hoje o país tem a possibilidade de escolher e que, por isso, não deveria escolher entre um lado ou outro.

"Precisamos escolher o Brasil, e entender que é importante para o Brasil vender seus produtos, receber esses investimentos, melhorar sua infraestrutura, diversificar ainda mais o parque industrial e, principalmente, desenvolver tecnologia. Não só importar tecnologia, mas usar essa esses recursos que estão chegando em abundância no Brasil para que a gente desenvolva tecnologia própria."

 

Por: José Carlos